domingo, 24 de abril de 2011

9 meses... mas ainda não é a hora!

Filho,

Em dois dias você completa 9 meses dentro da minha barriga. E, ao contrário do que se diz por aí, não, ainda não está na hora de você nascer... Vou te explicar: na verdade, a gravidez dura 40 semanas, o que significa 10 meses, e não nove, pois cada mês tem 4 semanas, em média. É, em média porque uma semana dura 7 dias e, por essa conta, todos os meses teriam que ser fevereiro, que tem 28 dias. E aí seria sempre carnaval. Carnaval é uma celebração que está no calendário cristão, mas que é pra lá de pagã. Cristão é quem é da religião cristã. Não, nem a mamãe nem o papai são dessa religião. Você poderá ser da que quiser, quando estiver grande o suficiente para entender o que é religião. Pagão é o que não é cristão. Bem, carnaval eu te explico mais pra frente, mas se você puxar a mamãe, não vou precisar explicar muito, você já vai saber o que é. Se puxar o papai, vai saber também, mas não vai gostar.

Bom, mas voltando ao tempo da gravidez. Eu fui entender o tempo que leva pra um bebê ficar pronto quando você já estava aqui dentro, mas ainda era um feijaozinho. Não era um feijão desses que eu vou te dar depois que você passar dos 6 meses, mas era como se fosse, porque era só um brotinho, entende? Bem pequenininho. Aí aprendi que nós contamos a gravidez em semanas, e são 40, não 36, como seriam se a gravidez durasse realmente 9 meses. Bom, é sempre uma data aproximada, e – eu não devia  te dizer isso – no fim das contas você é que acaba dizendo quando quer sair, sabe? Mas tudo bem, porque quando você completar 37 semanas, se resolver sair, já estará prontinho para sobreviver aqui fora. Mas nada de pressa, ok? Sua mãe e seu pai ainda têm muitas coisas para organizar para você e para nós, antes de você nascer.

Seu quartinho está praticamente pronto. Tirando um ou outro detalhe, tipo buscar o trocador que mandamos fazer, terminar de lavar e passar suas roupinhas e esperar as coisas que sua vó Beth está preparando pra você lá em São Paulo, já avançamos bastante. Sim, porque seu quarto originalmente ia ser um escritório. Um lugar pra seu pai e eu trabalharmos quando não estivéssemos no trabalho. É que às vezes a gente tem que levar trabalho pra casa, sabe? Tipo você com o dever de casa daqui a alguns anos... Mas aí você apareceu e mudou tudo. O que ia ser escritório ficou sendo seu quarto, e do escritório só sobrou a mesa, porque ela já estava lá. Mas pode ficar tranqüilo que tem bastante espaço para você brincar aqui. Muito mais do que onde você está agora, que só consegue mexer um pouquinho os braços e as pernas e brincar com essa cordinha molinha que fica presa na sua barriga. Nada de dar nó nela, tá, Luca? Nem de ficar apertando ela em volta do seu pescoço... vamos facilitar as coisas...

Ultimamente eu tenho sentido você querendo sair daqui, e sua cabeça já está bem baixa. Aliás, eu queria te perguntar como é viver de cabeça pra baixo tanto tempo, se você não fica tonto ou enjoado. Sua vó disse que eu estava de cabeça pra baixo na barriga dela, mas eu não lembro como era. Também não lembro de mim saindo, mas sei que foi por um buraco que abriram no meio da barriga dela, numa cirurgia, e não pelo meio das pernas, como normalmente é. Teve um probleminha na hora e tiveram que fazer isso. Mas com a gente isso não vai acontecer, pois eu estou me preparando e você até agora só tem colaborado. Continue assim, ok?

Assim, eu não quero que você saia agora, mas ao mesmo tempo estou muito curiosa para saber qual é a sua carinha. A gente já te viu por uma telinha algumas vezes, fazendo um treco que chama ecografia, para saber se você estava se desenvolvendo direitinho, mas não é a mesma coisa que ao vivo, sabe? Além de não ser colorido, é tudo meio borrado, e a gente fica na dúvida se, por exemplo, suas bochechas serão grandes como aparentam ser. Sem falar que não dá pra ver se você terá os olhos da mamãe ou do papai. O nariz achamos que será o meu, e a testa, a dele. Mas tudo isso só teremos certeza quando te pegarmos no colo e contarmos todos os seus dedinhos.

E, no fim das contas, não importa com quem você se pareça, você já é muito aguardado e amado por mim e pelo seu pai. Passamos esses meses todos nos preparando para sua chegada, e foram meses que voaram, porque foi de repente que você já tinha ficado sem espaço aqui dentro da mamãe... Hoje, 9 meses depois, eu já posso sentir você me dizendo que a hora está chegando. E, ao invés de sentir medo, eu fico imaginando você aqui, do lado de fora, aprendendo um monte de coisa, aprontando outras tantas e me pregando um monte de sustos. Eu vou ficar brava, pode ter certeza. E posso te por de castigo também. Mas vou continuar te amando do mesmo jeito como quando você ainda estava aqui dentro e o máximo que fazia era obrigar a mamãe a mudar de posição no meio da noite para continuar dormindo...

sábado, 2 de abril de 2011

Eu conto os dias, conto as horas pra te ver...

Bem, chegamos a mais um mês de gravidez. Estou no oitavo, agora só faltam 2. Sim, porque essa história de que gravidez dura nove meses é uma grande farsa. A gravidez é contada pelos médicos em semanas, e demora 40 até o bebê sair daqui de dentro. Bom, mas não vou entrar nesses pormenores...

Quando descobri que estava grávida, parecia uma eternidade o tempo para a barriga começar a aparecer. Hoje, olhando pra trás, acho que passou até rápido demais. Fico olhando minha barriga pelo espelho e imaginando que logo logo ela não estará mais ali... bem, pelo menos não com um bebê dentro dela. Não posso dizer que sinto saudade, mas pelos relatos que ouço, acho que o caminho é inevitável...

O primeiro item perdido do guarda-roupa foram as calças jeans, seguidas dos sutiãs, perdidos duas vezes. Sim, porque tive que comprar um número maior com apenas 3 meses, e outro quando cheguei aos 6 ou 7. Chega a ser desesperador o quanto o corpo da gente muda para recepcionar esse serzinho que, como disse o Edu aí embaixo, faz questão de, a cada dia que passa, se mostrar mais e mais presente.

E não estou reclamando disso, não, muito antes pelo contrário. Esse espaço que ele está ocupando, se mexendo, me chutando, mudando de posição, fazendo crescer minha barriga, me ajuda a perceber que logo logo estarei com ele nos braços, dando de mamar, ninando, pondo pra dormir, trocando fraldas e brincando. Acompanhando o seu desenvolvimento, ensinando e aprendendo com ele. E, apesar de eu encarar a gravidez sem nenhum glamour e com muito pragmatismo, sinto que a maternidade será a experiência mais singular que poderei passar na vida.

Às vezes tem umas coisas muito loucas que passam pela minha cabeça, do tipo, “será mesmo que um neném vai sair de dentro de mim?”, “será que eu vou gostar dele?”, “vai ser pra sempre mesmo que vou ter um filho?”, entre outras perguntas não muito óbvias, ou pelo menos comuns, mas com respostas que eu suspeito já conhecer.

Tenho achado engraçado os chutes que ele me dá, e as tentativas de me fazer mudar de posição. Impressionante como ainda nem saiu e já vai regulando toda a minha vida... bem, apesar de que isso tem sido assim desde que soube que ele estava chegando... reorganizar a rotina de saúde, de exercícios, parar de fumar e de beber, controlar a alimentação, putz, um monte de coisa que a gente sabe que devia fazer sempre, mas precisa de um serzinho ainda tão delicado e indefeso dentro da gente pra tomar juízo e se cuidar de verdade. Na verdade, acaba que nem estamos cuidando da gente, mas sim dele.

Desses dois meses que me restam, eu só desejo que corram da forma mais tranqüila possível, que ele continue ganhando peso – mas eu não, se isso for possível! – e terminando de se desenvolver antes de mudar de casa. Que minha saúde não me pregue peças, e que eu consiga terminar todas as minhas pendências no trabalho, para me permitir viver os próximos 6 meses exclusivamente para essa nova experiência.

sábado, 26 de março de 2011

É um menino!

Nunca me imaginei ser pai de um menino. Por ter crescido numa família predominantemente feminina e ter sido pai de uma menina, nunca me passou pela cabeça que um dia teria um filho homem. Confesso que no início fiquei um pouco assustado, porque não sei como é ser pai de um menino. É desconhecido demais. Eu não tive exemplo de como cuidar de um menino, então vou ter que criar o meu próprio jeito de cuidar de você, neném. E pode apostar, vamos inventar várias coisas juntos, eu, sua mãe e você.

Só pra deixar claro que a questão do ser pai de um menino não tem nada a ver com preferências por um ou outro gênero, mas é que realmente nunca imaginei essa situação. Mas quem foi que disse que o óbvio que é melhor? Já estamos aqui há quase 8 meses de gravidez e pode ter certeza que já tenho vários planos de como vamos fazer as coisas. Aposto que vai ser bem divertido. Bem, pelo menos eu espero isso. Prometo que vou tentar, dentro de todas as minhas possibilidades, ok?

Pensando hoje, olhando para a minha própria trajetória, que é onde eu tento pegar os exemplos positivos e negativos para você, tenho medo que você se enfie em um terço das roubadas que eu me enfiei. Muitas delas são perigosas e desnecessárias mas acontecem, não sei se feliz ou infelizmente. Mas por outro lado eu sei que se não tivesse feito o que eu já fiz, não seria eu, mas sim outra pessoa e isso não teria a mínima graça, porque provavelmente eu não teria conhecido a sua mãe, não teria me apaixonado por ela e você não existiria. Simples assim.

Mas mesmo assim me preocupo em como ser pai de um menino. Já queria adiantar pra você que na parte esportiva não vai dar pra você gostar de futebol, porque eu não sei chutar uma bola em linha reta. Mas podemos escolher várias outras coisas, como o volei, lutas, piscina, etc. Mas futebol não, por favor. Hoje, você já está ocupando um espaço enorme dentro da barriga da sua mãe que está começcando a fazer com que ela não tenha posição para dormir, para trabalhar. A cada dia que passa, você faz questão de mostrar que está mais presente. Mexendo um monte (quando eu não estou por perto), crescendo a cada dia e fazendo com que tudo aqui fora seja mobilizado em função do dia em que você nascer. O mais interessante de nascer é que a gente já começa a dar trabalho antes mesmo de chegar. Mas é um trabalho legal, de expectativa, de vontade de ver como você vai ser.

E por falar em trabalho, será que tem como a gente fazer um pacto para não acordarmos de madrugada? Algo do tipo dormir meia-noite e acordar às seis da manhã pra mim já tá legal. Como todo mundo aqui gosta de dormir, acho que você vai gostar também. Até porque seu berço tá lá todo bonitinho e quentinho só pra você. Não tem motivo para você não querer ficar lá, ok? Combinados?

E por falar em dormir, acho que está na minha hora de dormir. Porque pra variar, amanhã a gente deve sair pra comprar alguma coisa pra você ou pro seu quarto.


e pra garantir se soninho já está preparada uma seleção musical de ótima qualidade. Escolhidas a dedo!!!

terça-feira, 22 de março de 2011

Plano de Parto de Heloiza, Eduardo e Luca

"Nesse momento tão especial de nossas vidas, sinalizamos aqui nossas preferências com relação ao trabalho de parto, o momento do nascimento, os cuidados com o bebê e na eventualidade de uma cirurgia, para que a vinda de Luca ao mundo ocorra de uma forma natural e humanizada. No caso de uma emergência durante o processo, estamos abertos a discutir outras possibilidades, mas gostaríamos de ser informados e consultados previamente antes de qualquer decisão.

Trabalho de parto
1.     Gostaria de ter a companhia, durante todo o tempo do TP e também no parto a presença de Eduardo, meu marido e Patrícia, fisioterapeuta que tem acompanhado a gestação e realizado, junto comigo, a preparação para o parto;
2.     Quero contar com a participação ativa de Eduardo, que irá me auxiliar com massagens e respiração entre as contrações, bem como oferecendo suporte afetivo e contribuindo para que minhas vontades, aqui expressas, sejam respeitadas;
3.     Prefiro ter liberdade de posição e de movimentação durante o trabalho de parto, bem como liberdade para usar o banheiro (não desejo a lavagem intestinal, caso mude de idéia, irei solicitá-la expressamente);
4.     Gostaria de manter o quarto com pouca luz e pouco trânsito de pessoas da equipe, sem barulhos externos e conversas alheias ao momento; levarei minha própria música, ouvindo se tiver vontade;
5.     Gostaria de ter liberdade para comer lanches leves e beber durante o trabalho de parto, e não quero que seja aplicado soro com o intuito de evitar desidratação;
6.     Gostaria que o monitoramento do meu bebê fosse feito apenas por meio do sonar e de forma não-contínua;
7.     Não desejo utilizar soro com ocitocina, somente se houver risco de hemorragia pós-parto; nesse caso, gostaria que o mesmo fosse utilizado apenas no período final do TP, para não interferir no andamento das contrações;
8.     Não desejo a raspagem dos pelos púbicos antes do parto;
9.     Não desejo utilizar nenhum tipo de analgesia e anestesia antes que recursos não-farmacológicos já tenham sido tentados; caso os deseje, solicitarei expressamente;
10. Quanto ao exame de toque, gostaria que esse fosse realizado apenas por minha obstetra, Caren, e somente quando necessário (de acordo com os padrões da OMS);
11. Não quero que a bolsa seja rompida artificialmente; caso ela rompa espontaneamente, e o TP ainda esteja muito no início, quero esperar o máximo de tempo (12h, segundo a obstetra) antes de iniciar alguma intervenção;

Parto
1.     Desejo que o parto seja realizado no próprio quarto, não desejando me locomover para o centro cirúrgico, somente em caso de emergência e depois de conversa prévia com Eduardo e Caren;
2.     Quero ter liberdade para escolher a melhor posição para o parto e o momento de fazer força, preferindo a expulsão prolongada; aceito que a equipe auxilie o processo, mas não que o conduza;
3.     Não desejo ficar deitada de costas, nem, em hipótese alguma, amarrada a estribos;
4.     Desejo um ambiente com pouca luz e poucas pessoas, sem barulhos externos e conversas alheias ao momento; utilizarei música levada por mim mesma, se assim desejar;
5.     Não desejo, em hipótese alguma, utilizar fórceps, ventosa ou manobra de Kristeller;
6.     Não desejo realizar a episiotomia; se for preciso, peço que seja dado suporte ao períneo ou feitas compressas quentes no local para prevenir lacerações.

Após o Parto
1.     Quero ter contato imediato com bebê após o nascimento, antes de qualquer exame, bem como realizar a amamentação ainda na primeira hora de vida;
2.     Desejo aguardar que o cordão umbilical pare de pulsar antes que seja cortado, o que será feito pelo Eduardo;
3.     Desejo aguardar a expulsão espontânea da placenta, com auxílio da amamentação;
4.     Alta médica o mais rápido possível.

Cuidados com o bebê
1.      Se houver necessidade da sucção das vias respiratórias, prefiro que seja feita por aspirador manual e não sonda, para conforto do bebê;
2.      Gostaria que a vitamina K fosse administrada via oral (primeira dose; as demais serão feitas em conjunto com o pediatra de minha escolha) e não por injeção, para maior conforto do bebê;
3.      Não quero que seja utilizado antibiótico oftálmico ou nitrato de prata nos olhos do bebê;
4.      Não desejo que seja dado banho imediatamente após o parto, nem utilizado qualquer produto, como glicerina, para remoção do vérnix do bebê; basta remover delicadamente o excesso de secreções com uma fralda ou pano;
5.      Quero que o bebê permaneça o tempo todo no quarto, mesmo na hora dos exames de saúde e testes físicos;
6.      Darei o primeiro banho no bebê, assim que restabelecer minhas forças; caso não tenha condições, Eduardo ficará responsável;
7.      Trocarei fraldas e amamentarei no próprio quarto; se ele precisar ir para o berçário, não quero que seja oferecida alimentação complementar de qualquer tipo, como água glicosada, chupeta ou bicos.

Em caso de cesárea
1.     Desejo entrar em trabalho de parto antes do encaminhamento para cirurgia;
2.     Desejo a presença do Eduardo na sala de cirurgia;
3.     Gostaria de ser informada de cada procedimento realizado durante a cirurgia;
4.     Gostaria de tomar anestesia peridural sem sedação;
5.     Desejo assistir a hora do nascimento, com rebaixamento do pano protetor;
6.     Quero ter contato imediato com o bebê após o nascimento e as mãos livres para segurá-lo, amamentando-o ainda na primeira hora de vida;
7.     Não desejo utilizar sedativos pós-operatórios, apenas analgésicos para controle da dor;
8.     Que sejam adotadas todas as recomendações referentes ao item anterior, para que eu possa cuidar do bebê de acordo com as minhas possibilidades."

PS. Depois de alguns meses de maturação, achei que era a hora de compartilhar com todos aqueles que não lêem esse blog como eu venho desejando que Luca venha ao mundo. Sei que gravidez é algo dinâmico, imprevísivel até, bla, bla, bla, mas acredito que quanto mais nos informamos, preparamos e planejamos esse momento, maior a chance de ocorrer conforme nossa vontade. Acredito que a mulher deve ter um papel ativo, protagonista mesmo, no nascimento de seu filho. E, mesmo que as coisas não saiam estritamente como planejado, ter um plano significa a possibilidade de fazer escolhas informadas. E algo para lembrar para o resto da vida...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Une femme grossesse... à Paris

Passamos o carnaval em Paris. Isso, eu, Edu, e nossa barriga de quase 30 semanas. Para alguns pode soar loucura desabalar carreira num avião para 8 mil km de distância, mas para nós era a última oportunidade de fazermos uma viagem a dois, só nossa. Apesar de Luca estar sempre conosco, em pensamento e em barriga, será tudo muito diferente depois que ele nascer. A rotina com um recém nascido é muito puxada e dispendiosa. E depois que ele estiver maiorzinho poderemos, claro, fazer viagens dessa natureza com ele junto, mas também será diferente, pois não estaremos concentrados apenas em nós, nossos desejos e bem estar. O dele sempre virá primeiro.

Por isso, a vontade de fazer uma viagem diferente, da qual pudéssemos nos lembrar por muitos anos, era muito forte. Uma viagem que fosse também uma lua de mel, que não tivemos. E o destino, difícil de escolher, não poderia ter sido mais acertado: sempre quis conhecer Paris, desde criança era a cidade que mais me fascinava, com aquela torre de mais de 300 metros, que se pode subir até quase o topo. Além do mais, a cidade é encantadora, com seus predinhos baixos, seus parques, praças e museus. Um convite a passeios sem fim, auxiliados por uma linha de metrô que nos permitiu conhecer muitos pontos da cidade.

Eu achei que a viagem fosse ser bem mais incômoda. Afinal, foram 3 aviões, num total de 15 horas de viagem pra ir e 15 pra voltar, com pernas apertadas e ar condicionado no talo (que evidentemente me rendeu uma bela gripe no retorno a Brasilia). Mesmo tendo tomado o cuidado de reservar os assentos no avião com 3 semanas de antecedência, a TAP (ora pois!) conseguiu a proeza de tirar nossos nomes do sistema na ida E na volta (isso porque na volta eu tinha um papel impresso com os lugares marcados). O que salvou foi ter vestido uma meia de compressão, super desconfortável, quente e pouco prática pra ir ao banheiro – coisa que grávida quase não faz.  Mas melhor que carregar duas jacas como tornozeleiras depois...

A surpresa – feliz – ficou por conta da existência de uma banheira no quarto do hotel. Me acabei nela todas noites, depois das caminhadas longuíssimas que fazíamos pela cidade. Um escalda-pé de corpo inteiro, que garantiu com que não inchasse nenhum diazinho... Mas não me livrou das dores na lombar, no ciático, nos músculos das pernas. Só porque era Paris mesmo, porque tinha hora que era difícil manter o bom humor, sabe. Mas a vontade de aproveitar cada minuto falava mais alto...

No último dia me assustei quando eram mais de 19h e tudo o que eu tinha comido, além do café da manhã, tinha sido um crepe de jambon et fromage (o bom e velho presunto e queijo) de rua... a pressão deu uma caída, e eu lembrei que com um filho na barriga não podia me arriscar a uma hipoglicemia, sabe... esse foi o momento mais tenso da viagem pra mim, e fui logo atrás de uma glicose para segurar a onda até chegarmos num restô perto do Sena para comer um delicioso fondue. O Eduardo ficou tão preocupado que queria me apresentar um sandwich grec (sim, eles comem churrasco grego lá, e não é pouco), dizendo que só o fondue não ia me alimentar...

Então, isso foi um pouco pra ilustrar que viajar grávida tem seus ônus e bônus. Eu juro que não sentia fome, mas sabia que precisava comer, pra que Luca ficasse bem. E aí sentava – a melhor parte pra mim – pra comer. Vontade de tomar muito vinho não faltou, mas me controlei muito, e escolhi alguns momentos para degustar um bom vin... deu vontade de fumar também, porque os franceses fumam loucamente e o frio sempre me deu mais vontade de fumar também. Mas isso não deu pra abrir exceção. Bebês e cigarros definitivamente não combinam. O bônus foi não pegar absolutamente nenhuma fila pra entrar nos museus que visitamos, nem pra entrar na torre – e essa era quilométrica – e ter lugar garantido pra sentar no metrô (mesmo sem nenhuma placa de assento preferencial nos vagões), exceto nos horários de pico, porque aí tinha que disputar espaço com os velhinhos – e eles sempre ganham.

O único quase incidente foi na volta de Campinas pra Brasília, em que a mocinha da companhia aérea me fez assinar um termo de responsabilidade pela barriga. Acho engraçado esse procedimento, que se não for eu a responsável por uma barriga que eu mesma gerei, não sei quem poderá ser... mais engraçado ainda foi ter cruzado o Atlântico pra lá e pra cá com o barrigão e ninguém dos vôos internacionais ter falado nada, a não ser “que lindo!”, “de quantos meses?”, “menino ou menina?”, “boa sorte”, num sotaque purtuguêix carregadíssimo, e ter me deparado com essa aqui na esquina... enfim, assinei o termo, enfiei minha cópia na bolsa e vim-me embora, não sem trazer um pouco de Paris comigo, e deixado um pouco de mim lá, só pra ter uma desculpa para poder voltar...


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Neném, qual é o seu nome?

Hoje fomos ao pediatra pela primeira vez. Conversamos muito sobre a saúde do bebê, o momento do parto, intervenções no bebê, amamentação... tiramos dúvidas e tudo correu muito bem.

O mais emblemático disso tudo foi que, ao chegar, a recepcionista me pediu para escrever os dados do bebê numa ficha, para o prontuário médico. E pela primeira vez, essa coisinha que tá crescendo aqui dentro de mim e que eu chamo de neném, filho, Luca etc., teve seu nome escrito:

Luca Egas François

Simples assim.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Empoderada pelo parto?

À medida que a gravidez avança, parece que o tempo passa mais rápido... ou então as tarefas aumentam. O fato é que não consigo vir a este mural eletrônico o tanto quanto gostaria. Entre trabalho, preparativos para a chegada de Luca e minha própria saúde, bem como a do casamento, vou tentando não perder de vista aquilo que acho importante registrar, as impressões e as opiniões que estão se formando dentro de mim ao longo dessa jornada.

Uma das coisas que tem me chamado a atenção, ultimamente, é o maniqueísmo com que vejo sendo tratado o tema do parto, ou melhor, do direito da mulher ao seu parto. Muito mais grave que enxergar as mulheres apenas como parideiras, é o desprezo que vejo em alguns discursos pelas que não conseguiram, ou não quiseram, um parto natural, sem intervenções e realizado em casa. Parece que essa paira como a maior realização de uma mulher, mais importante até do que ser mãe e criar bem o filho que está trazendo ao mundo. O discurso é supostamente empoderador, mas na verdade revela uma face individualista e autoritária, uma imposição do parto ideal – e da maternidade ideal. Fico querendo perguntar o que essas mulheres pensam sobre o aborto, e se fariam um caso a gravidez viesse num momento inoportuno...

Sou favorável a que mulheres – e homens, pois a gestação e o nascimento também têm que ser entendido como um momento deles – tenham acesso ao máximo de informações possíveis, para que possam fazer o que se chama por aí de uma escolha informada. Se depois de ler tudo sobre parto natural, parto normal, com intervenção, sem intervenção, no hospital ou em casa, a mulher (sim, a escolha final ainda é nossa, ta? Pelo menos eu penso e ajo assim...) ainda assim preferir enfrentar uma cirurgia para ter seu filho, que assim seja. Não acredito que será uma mãe melhor ou pior exclusivamente por esse critério. Nem que será mais ou menos realizada por ter passado pelo trabalho de parto.

Muitas vezes, o parto natural não é possível. Muitas vezes, a mulher acha que vai segurar a onda da dor e não segura. Muitas vezes, o bebê prega uma peça no meio do trabalho de parto e precisa ser retirado da barriga da mãe às pressas. E ainda bem que temos recursos para isso, pois cesáreas bem indicadas salvam vidas! Pode ser frustrante logo de cara, mas o que vem na seqüência é algo tão maior que o parto, e que a própria mulher, que acho que o lance é ter a cabeça fria e se concentrar pra amamentar, pra dar banho, trocar fralda e se preparar para as noites em claro que irão – mãe e pai – passar, dando mais conforto a essa vida que acaba de chegar. Só que a pressão durante a gravidez é tão grande, que a mulher acaba se sentindo uma fracassada porque as coisas não ocorreram como ela idealizou... Dor e sofrimento desnecessário, pior do que qualquer dor de parto.

Para mim, é importante vivenciar o processo do ponto de vista fisiológico do começo ao fim, tanto que estou me preparando para isso. Não terei meu filho em casa, como gostaria, porque meu companheiro não se sente seguro com essa opção. E para mim é mais importante tê-lo ao meu lado inteiro, concentrado e seguro ao longo do processo, do que usar as toalhas brancas lá de casa para limpar Luca quando ele sair daqui de dentro. E, ainda assim, alternativas não faltaram. Procurei o hospital que mais se adequasse ao meu entendimento sobre o parto, uma médica que fosse sensível às minhas demandas e respeitasse minha voz de mulher, mãe, grávida, parturiente e o que mais eu for nesse momento, uma acompanhante para o parto, um pediatra para antes do nascimento e o máximo de informações sobre todas as variáveis que podem ocorrer na gestão, trabalho de parto, parto e nascimento, para elaborar um bom plano de parto, que fosse respeitado por todos que escolhi para estarem perto de mim no dia que meu filho resolver vir ao mundo.

Mas, sabe, não condeno quem pensa diferente de mim, nem julgo quem, simplesmente, não pensa. Como li sabiamente outro dia, cada mulher tem o parto que tenta, deseja, e consegue.

Só acho que essas mulheres que defendem ferrenhamente o direito de um parto como tiveram as avós de nossas avós, deveriam estar mais preocupadas em questionar a prática médica, hoje majoritariamente, pelo menos na rede privada, favorável à extração cirúrgica do feto. Uma prática autoritária, que parte de uma suposta superioridade baseada no conhecimento científico, das benesses financeiras de receber por uma cirurgia, e da comodidade de saber que horas vai chegar em casa. E que desconsidera o direito da mulher de conhecer seu próprio corpo. Para muitas isso é conveniente. Para outras, é uma tortura, uma encruzilhada da qual não sabem como se desvencilhar, e que gera angústia e culpa quando as coisas não saem como ela deseja. Os poucos médicos que caminham na contra-corrente cobram caro pelos seus serviços e o SUS, onde as recomendações da OMS sobre o parto conseguem ser mais ou menos aplicadas, tem profissionais mal orientados, com sobrecarga de trabalho e toda uma cultura intervencionista atuando contra eles. Sem falar na falta de anestesia e de leitos, é claro.

Difícil ter um parto humanizado em condições tão desumanas...

Confesso que não tenho disposição para militar em prol da humanização do parto em espaços como os que vejo disponíveis por aí. Parece uma competição, um monte de mulher querendo dizer que seu parto foi o melhor, e ela a mais valente. Fora as neuras da maternidade, como se mais nada existisse no mundo, só a cria.

Acho que tem uma discussão anterior, na qual a mulher precisa ser enxergada como um ser humano na sua totalidade, não só na maternagem. Enquanto as mulheres não forem, de fato, soberanas de seu próprio corpo e autodeterminadas em seu destino, muitas desnecesáreas continuarão ocorrendo mundo afora... e continuaremos sendo maltratadas e subjugadas nas maternidades, subestimadas em nossa capacidade de gerar e parir.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

“Você vai conseguir?”


Essa foi a pergunta que escutei dias atrás quando disse a uma enfermeira, numa maternidade, que desejava dar banho no meu bebê quando ele nascesse. A cara dela, de espanto, veio seguida da pergunta, ao que respondi: “Claro! Por que não conseguiria?” e ela, muito sem graça, tentou disfarçar a indelicadeza que acabara de cometer.

Gafes hospitalares à parte, essa visita fez cair algumas fichas pra mim quanto ao momento de tirar Luca daqui de dentro.

Quando mostrei meu plano de parto à obstetra – logo vou compartilhá-lo por aqui – ela não se opôs a nada do que eu sinalizei, fez questão de explicar algumas coisas, desmistificar outras, enfim, foi super paciente com minhas perguntas e disse que, para ela, o parto normal sem intervenções é a regra, ainda mais com mulheres que, se informam e se preparam para este momento. Isso me deixou bem à vontade e tranqüila e, a despeito das minhas elocubrações sobre essa nova vida que está se formando dentro de mim, mais segura em relação a contrações, dores, e tudo o mais de bom e de ruim que eu ouço dizer que vem com o parto.

Uma das questões postas por ela foi, no entanto, com relação aos primeiros cuidados com o bebê. Quanto a esses, eu deveria pactuar com o pediatra que atendesse Luca quando ele nascesse, que em princípio seria o que estivesse de plantão no hospital no momento do nascimento. E a fala dela deixou transparecer que, se pra ela o parto normal, sem intervenções, é algo muito simples, o nascimento natural, sem intervenções não é bem assim. E, na ida à maternidade... bingo! Fiquei com a mesma sensação.

Que o parto se tornou um ato médico, cheio de mistérios para nós, simples mortais, leigas E mulheres, disso ninguém duvida. Que as enfermeiras ligam o automático na hora das intervenções, também não. Que há uma dúvida generalizada na sociedade a respeito da capacidade das mulheres de parirem seus filhos (como de fazerem outras coisas também), então, nem se fala. E que elas se espantem quando chega uma mocinha, junto com seu marido, também mocinho, dizendo que quer ter seu filho de parto normal, sem intervenções e no quarto (ao invés do centro obstétrico), bem, nada mais é que uma decorrência natural dessas afirmações.

Também é uma decorrência desses entendimentos que o nascimento é um ato médico e inclui intervenções sem necessidade clínica comprovada para todos os casos. Depois que li Lebouyer falando de como os bebês sentem o momento do nascimento, me convenci de que, quanto menos a criança for perturbada, melhor, inclusive para que o espaço entre nós dois, e o pai dele, possa se afirmar ainda nos primeiros instantes de vida (o que inclui, sim, o banho, oras!).

Sem falar que algumas coisas, Luca tem que ter o direito de escolher, como o dia de nascer, e o momento de começar a respirar (para o que ele precisa ficar ligado a mim pelo cordão até que este pare de pulsar...). É o mínimo de autonomia que se deve a essa vida que está chegando  - e que não pediu para vir, diga-se de passagem. Para mim, dar essa oportunidade a ele significa afirmá-lo enquanto um indivíduo, sujeito de direitos, desde o primeiro instante. E isso não é teoria barata. Isso é direito humano.

Ainda estou procurando pediatra e formando opinião, mas algumas coisas para mim são um princípio. Sei que o imponderável pode acontecer, e tudo ocorrer diferente do que eu desejo ou planejo, se minha vida ou a de Luca estiverem em risco. Só que isso, até o momento, não está nem perto de acontecer. Mesmo assim, quero deixar claro que não sou uma dessas doidas, extremistas, que acham que a tecnologia não pode estar a serviço do momento do nascimento. O que não vou aceitar, definitivamente, é estar a serviço de conveniências médicas e hospitalares, nem da arrogância baseada no mero conhecimento científico, sem evidências e sem a análise específica do caso com que se está lidando.

Eu e Luca não somos estatísticas, somos mãe e filho querendo, cada um, dar à luz e vir ao mundo da maneira mais serena e feliz que for possível.

E, sim, nós vamos conseguir.

ps. Por fim, quero compartilhar esse link, muito bacana, com algumas opiniões sobre o momento do parto que eu compartilho integralmente, além de uma entrevista com uma mãe de primeira viagem, como eu, que teve medos muito parecidos com os que eu estou sentindo nesses dias... mas que conseguiu superá-los.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pela metade

Essa semana eu cheguei à metade da gravidez. Em função disso, algumas constatações vieram à tona:


  1. Minha barriga cresceu mais nas duas últimas semanas que nas 18 anteriores;
  2.  Eu nunca mais vou ganhar presentes que sejam só pra mim;
  3. Não ter enjôos é maravilhoso, mas eu topo encará-los numa próxima se for pra me livrar da montanha russa dos hormônios;
  4.  Estrias são um perigo real, portanto, trate bem sua barriga e seus peitos;
  5.  A julgar pelo tamanho que meus peitos já estão, acho que eles vão explodir quando o leite descer;
  6.  A dor lombar é horrível, mas não reclame dela; significa que seu corpo está produzindo relaxina e se alargando para o parto;
  7. É difícil diferenciar, no começo, quando o bebê está dando chutinhos e quando são gases;
  8. Não existe calça jeans que fique bem e ao mesmo tempo confortável; é uma questão de praticidade – e de tempo, porque a barriga passa...
  9. O sono não passa nunca;
  10. O neném já não é mais um feijãozinho mas ainda é difícil – pelo menos pra mim – encará-lo como um ser humano... talvez eu precise da materialidade da coisa... ou de um ultrassom morfológico... ou de uns chutes mais fortes, quem sabe?


A cada dia que passa fico mais animada com essa idéia de ser mãe, ao mesmo tempo que a cada dia que passa novos questionamentos surgem sobre como as coisas serão quando Luca estiver aqui fora – e com eles, alguns temores também.

A sensação é precisamente de estar pelo meio do caminho: meio mãe, meio filha. Meio jovem, meio adulta. Meio menina, meio mulher.

Estou sinceramente cheia de meias certezas. E evitando criar expectativas demais. Meu desejo, e minha maior convicção até aqui, é que se cheguei à metade do caminho me fazendo perguntas, talvez agora esteja chegando no momento de encontrar as respostas... pelo menos algumas delas...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

uma ilustre companheira

Olá, Barriga,

Muito prazer, meu nome é Heloiza, e agora você faz parte do meu corpo. Sei que não é pra sempre, mas atualmente você anda crescendo a olhos vistos e, de dois dias pra cá, é praticamente impossível não notar sua presença. Aliás, já reparei que v. exerce um certo fascínio sobre as pessoas. Todo mundo quer por a mão em você. As pessoas enxergam primeiro você, depois a mim. Meu marido tenta disfarçar, mas ele sofre do mesmo problema. Na verdade, acho que é um pouco de inveja, porque ele não pode carregar você no meu lugar, sabe...

Confesso que achei que não fosse ligar tanto, mas me incomoda o fato de descobrir que v. tem muito mais facilidade para fazer amizades, em 4 meses, do que eu tive em 30 anos...

Bem, acho que daqui pros próximos 6 meses, não vai adiantar muito querer competir com você, porque sua escalada é morro acima, ou à frente, dependendo do referencial. Então, muito humildemente, gostaria de pedir algumas coisas, para garantir nossa convivência pacífica nesse tempo que passaremos juntas:

- Não fique cheia de estrias; de minha parte, passarei creme em você todos os dias, um daqueles bem grossos, pra te deixar bem hidratada, mas preciso que v. colabore e vá esticando devagar, para que as marquinhas brancas não apareçam; não se esqueça que elas vão te atormentar também depois que o neném sair daí de dentro...

- Sei que v. quer garantir um lugar confortável pro bebê, mas não cresça demais, senão o peso sobre as costas será insuportável de carregar; o que eu farei é comprar roupas bem confortáveis para te abrigar, mas se você crescer demais, vai ficar meio difícil achar algo que fique bem...

- Bom, se tiver dois nenéns aí, paciência... a vida vai ser mais difícil pra nós duas...

- Não fique acumulando líquidos; se eu bebo muita água, é pros rins trabalharem e liberarem tudo rapidinho;

- Por favor, por favor, não acumule gases também... v. não sabe como é desagradável e nada aceito socialmente ficar soltando odores em lugares públicos e privados quando não se está sozinha...

- Ah, sim, e mais importante... depois que o neném nascer, entenda que seu trabalho está terminado... não fique querendo estender sua estada por aqui além do necessário... sem ressentimentos, ok, mas esse corpo não te pertence...


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mudando de órbita

Quem me conhece sabe que me expresso bem pelo universo das letras... gosto de ler, escrever, sistematizar, elaborar, revisar... tudo que mexa com palavras, é minha praia. Por isso fui pega de surpresa quando me vi com dificuldade de escrever sobre a gravidez. Esse foi o primeiro escrito sobre o assunto, pouco mais de um mês depois de descobrir que tinha um neném se formando dentro de mim e que acabou perdido e encontrado apenas hoje... Coisas de neo-grávida, mas que resolvi dividir aqui, já que esse blog, de um jeito ou de outro, é pra isso mesmo.


“Já tem dias que estou ensaiando escrever, mas não o faço... minha vida está começando uma mudança gigantesca, e eu nem consigo de dar conta por completo disso. Ter um filho... me anima a idéia, demais, esse era um desejo antigo. Ao mesmo tempo, são muitas as questões que isso acarretou e irá acarretar daqui por diante... gestar, parir, cuidar, amar, sustentar, apoiar, escutar, tantos verbos que exigem uma doação tremenda da minha parte a partir de agora...

Começo a me perceber pequena diante da enormidade que isso significa... deixando de girar ao meu redor apenas... preparando-me para mudar de órbita.

Um engano achar que já não mudei. Posso apenas não ter percebido, em parte porque ainda estou envolvida com minhas questões individuais... como será a vida daqui pra frente? Como será a relação com o Edu, como será o trabalho, como ficará meu corpo com barriga e depois da barriga, como ficará minha mente... meu parto será normal, vou suportar a dor, terei leite, vou segurar as pressões... as perguntas parecem não ter fim.

Hoje, quando me vi com a disposição baixando, com dificuldade de me concentrar, de achar uma posição confortável, me incomodei com o que está por vir. E senti pela primeira vez a ambigüidade de que tanto se fala a respeito das neo-grávidas. De estar feliz e ao mesmo tempo não querer abrir mão da vida construída até aqui, tão ajeitadinha, mesmo que seja na sua própria bagunça... Mas a coisa foi fluindo, e ficando melhor, a cada dia... a relação com o Edu se fortalecendo, a ausência de enjôos, o sono se restabelecendo sem alopatia nenhuma, a animação pra cuidar da saúde... o abandono do cigarro, dos maus hábitos alimentares, e a consciência de que já não faço isso mais apenas por mim, por minha saúde ou por minha beleza... mas porque alguém mais me mobiliza e me movimenta nesse sentido. Já não sou mais dona de mim.

Talvez seja isso mesmo o que me espera... experimentar sentimentos de plenitude e de falta, um atrás do outro... mas que momento da vida não foi assim? Talvez agora seja até mais fácil de vivenciar a oscilação. Ela tem uma razão de ser tão maior que ela mesma, que já não me incomoda mais. Vou simplesmente me concentrar no que está por vir e aceitar as coisas como elas tem que ser. Ok, tendo que lidar com todos aqueles ‘como será’, lá do começo, além da insegurança de estar ou não um filho perfeito... domar a curiosidade de saber como ele será antes dele estar pronto... No fundo, não me importa se menino ou menina, se gêmeos (calma, amor), me importa que venha perfeito, saudável, e que eu não seja responsável por lhe causar nenhum mal antes de saírem de dentro de mim...

Ainda tenho muitas questões a trabalhar e a viver, e me parece que é tudo muito rápido, pois a gravidez só dura 9 meses (tá bom, 10...). Quantos anos eu não passei pra entender meus grilos? Como dar conta desses que chegam em tão pouco tempo? Fico aliviada por finalmente estar começando a escrever as perguntas, mas onde isso vai parar? Onde estarão as respostas?”

sábado, 27 de novembro de 2010

Cada um no seu quadrado

Malu-Luca,

Mamãe está particularmente feliz, e resolveu fazer como seu pai e te escrever também. Está satisfeita porque um trabalho muito importante para ela está sendo finalizado de forma bem-sucedida e agradando a todos, apesar de todo o rebuliço que você vem causando dentro de mim nos últimos meses. Não me entenda mal, estou muito, muito feliz que v. está aqui dentro, se desenvolvendo e crescendo a cada dia. Sua mãe queria muito ser mãe e, de quebra, te descolou um pai massa, que também é um marido e um companheiro maravilhoso.

Mas acontece que pra você crescer direitinho aqui dentro, o corpo da mamãe teve que passar por uma série de modificações. Bem, você não me causou enjôos, e eu te agradeço imensamente por isso. Só por isso já te acho uma pessoa mais legal, e olha que v. nem me chamou de mãe ainda... Mas uma dessas mudanças é que eu fiquei mais lenta, mais distraída, com dificuldade até de trabalhar. Passei por apuros, e cheguei a pensar que nada mais seria como antes. Agora, que eu já estou mais acostumada com você aqui dentro, as coisas aos poucos estão voltando à normalidade, e a mamãe está voltando a produzir como antes.

A segunda coisa que está me fazendo especialmente feliz é que hoje foi o dia que v. efetivamente ganhou seu quarto. Bem, ele ainda não está do jeitinho que v. vai ver quando sair daqui de dentro, porque eu mesma não sei bem como ele vai ficar. Gostaria primeiro de saber se v. vai ser Malu ou Luca para deixar a imaginação fluir, sabe?

Mas a história é a seguinte: quando a mamãe casou com o papai e veio morar em Brasília (depois você pede pra ele te explicar o que é Brasília), viemos morar nesse apartamento de dois quartos, pensando em montar um escritório no segundo quarto; aí você chegou e o quarto passou a ser seu. O problema é que o escritório ficou montado pela metade, e os livros – maioria da mamãe, porque o papai prefere ler figuras – ficaram dentro das caixas da mudança, porque não tinha outro lugar na casa para eles.

Bem, aí fomos atrás de resolver isso, e te entregar seu quarto como é devido, até porque nem eu nem seu pai gostamos dessa história de você dormir no mesmo quarto. Sabe o que é? Tenho certeza que sua companhia será adorável, até de fraldas sujas e berrando de fome, mas é importante v. ter seu cantinho, desde sempre, e a mamãe e o papai terem o deles... Cada um no seu quadrado, sabe? Não? Bom, quando v. estiver com uns 12 anos você vai entender o que eu quero dizer... Aliás, v. vai agradecer imensamente. Enfim, voltando ao tema, saímos correndo atrás de alguém que construísse um lugar pros livros morarem, lá dentro de casa mesmo, para você poder ter o quarto todo só pra você. E ontem o lugar dos livros, que se chama estante, chegou lá em casa, o que significa que a gente vai poder montar o seu quartinho também.

Como eu te disse antes, não sabemos ao certo como ele vai ser, só temos algumas idéias. Juro que se eu pudesse, te perguntava como v. gostaria que fosse, mas eu e seu pai vamos ter que nos virar e torcer pra v. gostar e sentir-se realmente em casa, como eu imagino que v. se sente aí dentro... Mas isso não importa agora; o importante é que o espaço já está aberto para a gente começar a pensar nisso. E isso me faz sentir você cada vez mais perto de mim, embora v. ainda seja tão pequenino e não possa me ouvir e nem se comunicar comigo por meio de chutes (que, aliás, é um jeito de estranho de demonstrar amor, se me permite a sinceridade desse momento íntimo entre mãe e filho...)...

Um beijo,

Da sua mãe.



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Instruções para nave mãe

Estamos em 2010. Você vai nascer em 2011. Dizem que o mundo vai acabar em 2012. Mas não preocupa não, porque já disseram isso em 2000 e nada aconteceu, nem os computadores falharam. Computador é aquela coisa que você vai ver eu e sua mãe mexendo e que você também vai adorar ficar batendo nas teclinhas e babando no teclado. Mas voltando às previsões, o que vai acontecer é que em 2012 você já vai estar andando e fazendo as primeiras artes graves como brincar com os cd´s (da mamãe), tirar os livros das estantes, tomar alguns tombos e beber água do vaso. Esse último, só faça quando ele estiver limpo, por favor.

Hoje, você tá aí dentro da nave mãe, no escurinho e cercado de água. Deve ser bem gostoso e tranquilo. Pena que eu não lembro quando estava na barriga da sua vó pra poder falar exatamente como era. E seu pai não acredita nessas coisas de regressão. Seu pai, essa expressão é nova, né? Então. Eu sou seu pai. Como sempre digo pra sua mãe, sou bonzinho e não vou te encher muito a paciência com exceção da escola que não abro mão de que você se esforce bastante, assim como faço com a sua irmã. Mas isso ainda tem tempo pra acontecer.

Sim, você já tem uma irmã. Ela é uma coisinha linda só que não vai dar pra vocês brincarem juntos porque ela é um pouco mais velha que você. Quase 17 anos. Tá bom, não briga comigo, porque você não vai ter a chance de roubar ou quebrar as bonecas dela, mas prometo que você vai gostar dela, até porque não tem como não gostar. Se tudo der certo, ela vai viajar no início do ano que vem para estudar no Canadá e vai voltar perto de você nascer ou até depois, não sei ao certo. Canadá. Um país, como o nosso Brasil. Quer dizer... Ele é um país, o Brasil também. Mas infelizmente não são nada parecidos até porque eles tem Alces, bichos que parecem cavalos preestóricos com chifres imensos, ursos e campeonatos de lenhadores. Mas o Canadá é um país legal. Um pouco frio, mas sua irmã deve se dar muito bem lá porque está indo para estudar e tem que aproveitar ao máximo essa viagem pra depois te ensinar alguma coisa que aprendeu lá.

Nesse exato momento, enquanto você cresce dentro da sua mãe estou preocupado com as costas dela que deu um jeito na academia e com a definição da equipe econômica do governo. Não liga para as minhas preocupações desconexas, mas é que seu pai aqui tem um probleminha de concentração e faz várias coisas ao mesmo tempo. Olha pelo lado bom. A gente vai poder brincar enquanto eu falo no telefone e assisto televisão ou lavo a louça (Quer dizer. Enquanto coloco a louça na lava-louças que sua mãe vai comprar pra gente). Você vai se acostumar. Prometo. Hoje é a primeira vez que eu escrevo algo relacionado a você, neném (essa coisa de não saber se você é menino ou menina me deixa um pouco confuso). As coisas mudaram um pouco de um tempo prá cá, sabe. Antes eu acordava e pensava como sua irmã estava, se tudo estava bem ou não. Depois foi sua irmã e sua mãe. Agora são sua irmã, sua mãe e você. Tá ficando cheio. Mas eu sou grande e cabe tudo aqui dentro, sem ter que tirar de ninguém.

A minha grande pergunta hoje é se você é menino ou menina. Se curiosidade matasse, juro que você já não me conheceria. Mas tá chegando o dia de saber se teremos que comprar lacinhos ou carrinhos. Mas não importa qual dos dois, você vai ser um neném, nosso neném e vai ser igual se fizer xixi para o alto ou não. E já vai nascer rodeado de gente que gosta de você, porque aqui fora tem avô, avó, mãe, pai, amigos, tios, bisavó e em breve cachorro e papagaio. Mentira, papagaio não vai rolar. Papai não gosta de passarinhos.

Neném. vou terminar esse comunicado de instruções para a nave mãe agora, porque a primeira presidente mulher (presidenta) do Brasil (lembra que esse é o nosso país, mas não é o Canadá) vai anunciar quem vai cuidar da economia pelos próximos anos e o papai precisa ir lá saber disso para informar os gringos (inclusive os canadenses). Mas depois eu explico como isso funciona. Fica aí direitinho e não inventa de fazer bagunça dentro da sua mãe. Ela detesta coisas bagunçadas.

Beijos e até mais tarde.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Gravidez não é doença!


Sabe aquelas doenças que toda criança tem? Sarampo, catapora, caxumba? Pois é, eu nunca tive nenhuma delas. Também nunca quebrei o braço ou a perna. O máximo que passava perto de hospital era pra ir num pronto socorro infantil perto de casa pra fazer uma inalação quando ficava gripada. Então, exames de sangue, consultas médicas, diagnósticos e receitas nunca foram uma rotina na minha vida. Mas quando fiquei grávida...


Quando fiquei grávida adotei pra mim a máxima de que gravidez não é doença. E não é mesmo. Tem os temidos enjôos, é verdade, dos quais não faltam histórias pra contar. Eu mesma, não tenho nenhuma, queridos leitores, sorry. Mas posso dizer que a gente fica mais cansada, é verdade, por conta do aumento de líquidos no corpo e dos hormônios. E com muita, mas muita vontade de fazer... nada. Bom, há também o problema – para os outros – das oscilações de humor. Tirando um ou outro pirepaque – com o marido, sempre ele – nada tão grave que prejudicasse minha reputação.

Bom, tem uma série de outros desconfortos, principalmente nos primeiros três meses, que eu acho que variam pra cada uma. No meu caso, nenhum deles me impediu de trabalhar, ainda bem, porque a relação com o trabalho muda e isso é uma coisa que eu tive dificuldade nesse começo de barriga. Mas outra hora falo disso.

Agora, que to entrando no segundo trimestre, as coisas estão mais amenas, e parece que a gente se acostuma com a idéia da barriga crescente. Uma coisa que não tem fim, porém, são os exames. Porque gravidez não é doença, mas chama doença.

Primeira consulta médica, a obstetra nem olhou direito na minha cara e já foi preenchendo trocentas guias médicas: hemograma, urina, HIV (outro dia eu li que esse é o tipo de exame que pode dar um falso positivo na gravidez, já pensaram o pânico?), rubéola, glicemia, putz, nem lembro mais. Depois, cultura de urina, e mais, hepatite, coombs (que é pra monitorar o fator RH, no caso de mãe negativa e pai positivo, como é o nosso), toxoplasmose (que nome horroroso!!!)... afff... Um hipocondríaco se sentiria no reino dos céus. E eu, que nunca tive medo de agulha ou motorzinho de dentista, não estou vendo a menor graça em ter que tirar sangue mensalmente. E olha que ainda tem mais da metade da gravidez...

Enfim, eu fico reclamando, mas no fundo, a gente acaba tendo que ser um pouco objetiva. Aliás, se tem uma coisa que a gravidez está me mostrando, são os caminhos pra ser um pouco mais prática e um pouco menos elocubrante... divagar é legal, mas o neném não espera, não. Ele vai se desenvolvendo aqui na pança, e se eu quiser que ele nasça belo e saudável, tenho que ir no ritmo dele... Aliás, acho que a partir de agora eu nunca mais vou poder ditar o ritmo da minha vida... o eixo se deslocou, e é um processo que não tem volta. Mas falar disso fica pra outro momento.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

dia de estréia



Somos, como tantos outros, mais um casal apaixonado que, decidindo construir uma vida em comum, embarcou na aventura – mais ou menos planejada – extraordinária que é gerar uma nova vida. Diferente de muitos, no entanto, que dizem que esse é um mundo hostil pra se criar uma criança, achamos que trazer uma vida ao mundo não é lhe proporcionar apenas experiências de um céu de algodão doce num mundo de rosas.

Para nós, fundamentalmente, trazer esse filho ou filha ao mundo significa a certeza de que a existência não termina em nós mesmos, e que a vida é uma experiência única que vale a pena conhecer.

Esse blog é pra registrar um pouco das nossas impressões, ansiedades, desejos, o bom e o mau humor da gravidez e também pra compartilhar um pouco com as pessoas mais queridas o que está se passando conosco nesse tempo em que esperamos Malu ou Luca.

Nos vemos por aqui,

Helô e Edu
Brasília, primavera de 2010