terça-feira, 27 de novembro de 2012

A maioridade em meses


Desde que Luca completou um ano de idade, que eu não venho mais aqui em frequência mensal. Falta de tempo e necessidade de contar histórias sob um outro prisma... Desde então falei do desmame, da Lei da Palmada, participei de blogagens coletivas, enfim... Mas 18 meses é um marco, e não só porque é mais metade de um ano que ele completa, e sim porque muitas coisas se modificam a uma velocidade impressionante. 

Eu sempre menciono que à medida que ele cresce, parece que suas habilidades se multiplicam em progressão geométrica. E é verdade. Da noite pro dia é uma nova palavra, é uma nova característica que ele mostra pra gente que adquiriu. Às vezes é difícil acompanhar tantos avanços, e a gente chega a ser surpreendido quando ele saca uma nova sílaba, ou faz algo que até então não conseguia. E por isso acho que é simbólico registrar seus passos mais recentes nesse ano e meio de vida fora da barriga... porque se desejo que um dia ele possa ler tudo isso e saber como foi seu desenvolvimento, alguns momentos não podem passar despercebidos e sem registro...

Ele tem usado algumas palavras com regularidade, para além de mamãe, papai, vovó e vovô. Fala máquina, máscara, banco, banho, sapo, chama os personagens dos livros que curte ver. Sabe mostrar como é que escova os dentes, como penteia o cabelo e como passa xampu. Anda de ré, e fala algumas palavras mais pela metade, tipo liqui(dificador), (venti)lador, pe(ra), kiji (kiwi), (ma)mão, (ca)rne, abó(bora)... já sabe o nome das educadoras da creche, mesmo que pronuncie só a primeira sílaba. Dá risada quando tenta falar alguma coisa que ainda não consegue e a gente repete a palavra toda, fazendo ele perceber que foi entendido. 
 
O guri ainda mama na mamadeira pra dormir de noite, ao acordar, e nos finais de semana ganha uma de bônus pra soneca do meio dia. Essa passou a ser  a única soneca dele, geralmente mais longa, fazendo o sono da noite ser ininterrupto. Não foi algo totalmente natural, tive que guia-lo nesse processo e mudar alguns hábitos. Até pouco depois de completar um ano, ele vinha dormindo 2 vezes durante o dia, sendo uma das sonecas no fim da tarde. Isso fazia com que chegasse 10h da noite e ele estivesse ligadão no movimento da casa. Aí orientei na creche que evitassem que ele dormisse após a janta... Só se ele demonstrasse que estava precisando muito. E ele logo se ajustou. Mas aí dormia no carro, a caminho de casa. Resultado, acordava bem mais tarde, mas só querendo mamar e dormir de novo.

E isso me acabava, porque acontecia bem na hora que eu já estava dormindo ou indo dormir... Aí eio o horário de verão e ficou mais fácil traze-lo acordado pra casa, e faze-lo comer uma fruta (já que a janta da creche acontece às 5h da tarde...) e depois mamar antes de dormir. Mas como hábitos não se mudam assim tão rápido, ele ainda tentava enrolar a gente acordando no meio da madrugada, pra que, pra que, pra que?? E um belo dia eu disse pra mim mesma que aquilo tinha que acabar. Ele acordou umas 3h da manhã, pedindo pra mamar e eu fiquei no colo com ele, explicando que não tinha mais mamá de madrugada, que o mamá tava dormindo e só acordava de manhã. Que o papai e a mamãe também só acordavam de manhã, e que o Luca podia fazer a mesma coisa, que ele já tava crescido pra isso. Ele demorou pra se convencer, demorou pra aceitar ir pro berço sem o mamá e demorou pra me deixar sair do quarto. No dia seguinte o pai foi levar a mamadeira pra ele no berço e eu avisei que ele tinha que reforçar a história de que o mamá tinha dormido a noite toda, e agora tinha acordado porque tava de manhã. Resultado: mininu não acordou mais de madrugada. Não pra isso. Próxima fase: eliminar todo e qualquer mamá. Vai ser fácil? Não. Tenho pressa? Também não. Luca tem me mostrado que tudo que é negociado, ele aceita bem. Basta ele compreender que está mudando de fase...

Falando em mudar de fase, ele também já não é mais um bebê de colo e termos aeronáuticos. Quando viajei com ele pra casa dos meus pais, coisa de dois meses atrás, compramos uma poltrona só pra ele, como se tivesse mais de dois anos. Foi uma burocracia só, e na hora do check-in, o atendente desavisado (ou operando no automático, como quase todos) quase muda o tipo de reserva, achando que tinha algo errado com o bilhete. Aí eu, com meu jeitinho educado e paciente com pessoas que saem fazendo as coisas da própria cabeça sem me perguntar antes se tá ok ou não, disse pra ele que era isso mesmo, que ele ia numa poltrona e não no colo... Sai mais caro, mas minha coluna, meus ouvidos, ele e todos os outros passageiros do voo agradecem...

Bem, mas algo que eu considero emblemático dessa maioridade mensal de mininu é que ele já consegue subir e descer escadas apoiando no corrimão, ou na parede, ou nos degraus (no caso de estar subindo)... E já aprendeu o que é cocô. Não que ele me avise sobre isso a ponto de eu pensar que um desfralde esteja vindo por aí, pelo contrário, pense em algo que não tenho pressa nem expectativa de acontecer antes dos próximos 12 meses... Mas ele já entendeu que tem coisas que saem de dentro dele, e já entendeu que a mamãe e o papai não usam fraldas. E ele, que antes era só rebeldia na hora de trocar a fralda, tem aceitado melhor esse momento, o que me faz pensar que há, sim, uma consciência sobre essa questão em processo de formação.

Observar todos esses avanços, diários, às vezes mais de um no mesmo dia, é encantador. Ver o cérebro dele em formação acelerada, curioso e atento com tudo o que acontece à sua volta é gratificante. Poder acompanhar a formação da sua memória, repetir coisas do dia anterior e perceber que ele se lembra delas, é como acompanhar um livro sendo escrito, e que poderá ser lido e relido muitas vezes a partir de agora... Ele já lembra dos brinquedos que gosta, e de alguns personagens também. É completamente antenado nos nossos devices eletrônicos, e outro dia conseguiu acionar a filmadora do celular, no modo autofilmagem. O vídeo ficou curtinho, porque ele logo desligou tudo, mas o resultado ficou impagável. Algo me diz que essa geração veio com um chip implantado na nuca...



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O equilíbrio dele ainda é meio trôpego, e ele não se aventura em subir em cadeiras e afins. No máximo desce sozinho do sofá, e ainda pedie ajuda pra descer da cama, que é mais alta. Mas já tem rolado de levar no parquinho e ir no balanço, no escorregador... Segurando, claro, mas ele se amarra quando não fica com medo, rsrsr. Eu acho graça mas não exploro. Se ele reclamou, eu tiro logo, porque brincadeira é brincadeira, não tem que ter tensão no meio. Não tem graça nenhuma achar graça na vulnerabilidade do mais frágil. Já escrevi sobre isso uma porção de vezes e acho uó quem se entretém com uma criança assustada, ou acha bonitinho quando ela chora.

É verdade que ele, por sua vez, que ainda é todo ID, se diverte com a nossa preocupação. Acha graça quando está no sofá ou na cama, e tenta se jogar de cabeça no chão, porque sabe que eu vou segura-lo. Faz de farra, assim como uma porção de coisas que eu digo não e ele leva como uma brincadeira. E essa é uma parte difícil, porque  envolve começar a por alguns limites, de leve e sem stress, mas pra ele perceber que tem hora de brincar e hora de falar sério. E ele não gosta de ser contrariado. Mas quem gosta? Ele não é de se atirar no chão, mas tem um choro muito específico para esses momentos. A essa altura do campeonato eu já consigo diferenciar, e espero ele respirar para poder explicar pra ele o que aconteceu pra ele ter ficado tão bravo. E o fato dele se calar e ir se distrair com algo mais me leva a crer que ele compreende bem o que foi dito... E assim vamos estabelecendo nosso próprio jeito de nos comunicarmos.

Luca também tem criado seu próprio jeito de brincar, de chamar nossa atenção e de expressar carinho. Porque eu acho meu filho muito fofinho, eu fico tratando ele igual um boneco, jogo pro alto, fico pulando com ele no colo, chacoalhando e fazendo palhaçadas. Não muito delicada, admito, hehehe... E por isso mesmo ele também andou um tempo com umas brincadeiras meio agressivas, e que me fizeram repensar a forma de me relacionar fisicamente com ele. Mostrar como faz carinho, que bater e morder não é legal, que as brincadeiras físicas podem ser mais leves... E não é que a coisa melhorou? Nossos bebês são mesmo umas esponjinhas, absorvem tudo o que ensinamos pra eles... A maior prova do ditado “a gente colhe o que planta”...

Por outro lado, tenho incentivado brincadeiras que estimulem o desenvolvimento dele. E ele responde bem, fazendo verdadeiros experimentos científicos para testar relações de causa e efeito (encher e esvaziar baldes e potes, ouvir os diferentes barulhos dos chocalho feitos com garrafas de água e grãos de alimentos, etc.). Já consegue folhear livros, inclusive alguns de páginas de papel, e sem estragar. Ainda se irrita com brinquedos que não sabe usar, e quando isso acontece, ele atira longe, sem dó. Ele já consegue comer frutas com a mão, mas não gosta muito de se sujar (acho que puxou ao pai nesse sentido, heehe)... Aí aprendeu que pode usar o garfo. E eu deixo, mas com regras. Ainda não dá pra largar o prato na mão dele, porque ele insiste em fazer experiências com ele, pra ver o que acontece se ele virar o dito pra baixo... O mesmo com o copo normal, então ele ainda toma no copo especial... Mas já aprendeu a tomar no canudinho, o que tem facilitado imensamente a vida quando saímos, pois podemos dar suco pra ele no copo do restaurante.

Eu também já falei aqui que desde os 8 meses que temos vivido também alguns episódios de grude extremo. A tal da ansiedade da separação ainda é muito presente, e a vontade de ficar com a mamãe e o papai também. O grude com Edu continua, e se manifesta com força nos finais de semana, que é quando eles efetivamente podem conviver, já que os horários do pai não coincidem com os dele nos dias de branco. Mas a relação com as avós melhorou sensivelmente nos últimos meses e visitas. Com o meu pai é um grude só, desde que ele o “comprou” com um pedaço de bolo de milho.

Agora, ir na casa dos meus pais é conviver com o bolo sendo parte do cardápio. Da última vez, meu pai chegava em casa do trabalho e o guri já começava bo(l)o, bo(l)o, ia direto pra cozinha... Mas eu não estresso muito não, só evito de ter bolo em casa, pra ele não achar que pode ser um hábito... Mas outro dia, na padaria, foi ele ver o bolo e eu ter que comprar pra dar pra ele... Como diz um amigo, tudo piora quando eles aprender o verbo querer e comprar. Luca nem sabe disso ainda, mas já sabe dizer a que veio...

Ainda na angústia da separação feelings, por vezes, deixá-lo na creche é um trabalho hercúleo, ele não deixa a gente ir de jeito nenhum, pelo menos não sem um pequeno escândalo. Eu fico com o coração estilhaçado, me dá vontade de largar tudo, e voltar a trabalhar só quando ele entrar na faculdade, ou então quando ele casar. Mas respiro fundo, penso que não é por aí, que fases são fases, e a gente vai contornando do melhor jeito que sabemos fazer.

Embora na creche digam que no momento que eu vou embora ele para de chorar, eu dificilmente saio da sala sem que ele tenha parado de chorar antes. Sair sem ele me ver, nem pensar. Uma vez presenciei uma cena dessa com outra criança e foi chocante pra mim. O pai saiu de fininho e quando a guria se deu conta, ficou re-vol-ta-da. Eu vi que ele não fez por mal, fez como achou melhor no momento. Eu até comentei com ele depois, numa boa, mas aquilo me tocou de um jeito... Ela ficou muito brava e depois muito sentida. O fato de não saber falar não era impedimento nenhum para expressar o que estava sentindo...

E quando a gente se presta a entender nossos filhos a partir da lógica deles de se comunicarem, é impossível não compreender o que estão sentindo... Pode ser mais fácil simplesmente reclamar que só sabem chorar, mas a verdade é que estão querendo nos dizer algo de forma muito precisa. E quando ele resiste a ficar na creche, eu tenho que me virar pra convence-lo, em poucos minutos, que ele vai se divertir por lá, e que eu vou voltar pra busca-lo. Porque o medo dele é justamente esse. O da separação definitiva.

E ele tem os referenciais de cuidado principal dele (eu e o Edu) muito claros e muito fortes na cabecinha dele... Exemplo recente foi quando, no meio de crianças de várias idades, entretido com um balde de pipoca que estava rolando ali no meio, se viu sem saber onde eu estava e começou a me chamar. As crianças não deram bola, e começaram a querer leva-lo para perto delas, e ele se agoniou mais e começou a chorar e chamando “mamãe, mamãe”. Eu, que estava bem ali ao lado, o chamei, e ele veio rapidinho na minha direção. O pai, vendo a cena, sentenciou: “esse aí ninguém leva embora fácil, não...”. É, esse é o meu guri, 18 meses de praia... 



domingo, 25 de novembro de 2012

Violência obstétrica também é violência contra a mulher!

Hoje, dia 25 de novembro, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Violência contra a Mulher, mais uma blogagem coletiva feminina e feminista está rolando na rede: é o vídeo

"Violência Obstétrica - a voz das brasileiras"

E, apesar de ter tido um parto extremamente respeitoso e proporcionado ao meu filho um nascimento muitíssimo humanizado, não poderia deixar de usar esse mural eletrônico para dar voz a parte das mulheres que corajosamente decidiram se expor em nome das milhares que confirmam uma infeliz regra: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA TAMBÉM É VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. E isso não pode ficar invísivel, tampouco impune:






Esse vídeo foi realizado de maneira espontânea e voluntária por:
- Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo;
- Ligia MoreirasSena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, autora do blog Cientista Que Virou Mãe;  
- Ana CarolinaArruda Franzon, jornalista, aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo e co-editora do blog Parto no Brasil; 
- Kalu Brum, jornalista, doula e co-editora do blog Mamíferas.
- Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.

(créditos retirados do blog Cientista que virou mãe)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Nós, as mulheres


Com a nova vida de home office eu pensei que teria um pouco mais de tempo para escrever sobre outras coisas... mas que nada, entre relatórios a serem elaborados, e uma maior dedicação com os assuntos domésticos (da casa atual e futura), e um pouco de procrastinação que me é peculiar, a verdade é que o dia tem sido tão curto quanto antes. Quando não é, eu aproveito pra ir buscar meu gordinho mais cedo na creche. E às vezes me bate até uma dúvida se ele não preferia ficar lá mais um tempinho, dados os eventuais protestos...

Por outro lado, pululam ideias dentro de mim para diversos posts aqui nesse mural. Para além de relatar as conquistas diárias de Luca, que segue rumo aos 18 meses muito bem vividos e desenvolvidos, há também muitas reflexões que venho carregando nos últimos tempos. De doenças a viagens, da ansiedade da separação aos mitos da maternidade. Difícil escolher um só, mas necessário.

Esses dias, participando de um grupo de discussões eletrônico formado por mulheres que buscaram o parto domiciliar como alternativa de nascimento para seus filhos, surgiu o assunto do direito de expressarmos nossos sentimentos em relação ao parto, dissociando-o da experiência de nascimento de um filho.

Mas é possível fazer isso? Separar o parto do nascimento?

E eu respondo: não apenas totalmente possível, como absolutamente necessário. E, infelizmente, altamente desvalorizado pela nossa sociedade patriarcalista.

Quem acompanha meus posts no facebook sabe que eu não perco a oportunidade de expressar minha indignação acerca do tratamento dispensado a nós, mulheres, quando nos encontramos naquele famoso “estado interessante”. Na verdade, o interesse se dá pura e simplesmente pela nossa barriga avantajada e projetada para frente, que desloca nosso eixo de gravidade e nossa coluna também... eu sempre detestei a ideia da minha barriga ser um patrimônio público, ou no jargão popular, um corrimão. E de tanto que não escondi isso, as pessoas faziam até uma cerimônia antes de meter a mão em mim. Autodeterminação na veia.

Bem, mas acontece que não é só isso que fica meio deslocado nesse período – e por muito tempo depois -, mas também nossas ideias, nossos desejos, nossas projeções e nossas inseguranças. Porém nada disso é permitido de ser vivido na plenitude e intensidade com que acontecem dentro da gente, porque o que importa “é que tem um bebezinho lindo chegando aí, que só vai te trazer alegrias etc. etc. etc.”. Antes fosse isso. Só alegrias. Traz também cansaço, irritação, impaciência, dúvidas. Sentimentos que também somos obrigadas a varrer pra debaixo do tapete nas rodinhas do parque, da creche e das festas infantis. Senão ainda corremos o risco de prejudicar a sociabilidade da nossa própria cria, por nos afastarmos do padrão. E isso é outro mito que esses dias li algo muito bom a respeito, e qualquer dia eu também vou me aventurar a escrever.

Enfim, quando eu estava grávida, especialmente entre o segundo e terceiro trimestre de gestação, comecei a me deparar com essa realidade. De forma mais direta, me disseram um dia, na chegada a uma festa, que eu me acostumasse a ser chamada de mãe, não mais de Heloiza. E que dali em diante ninguém mais ia querer saber de mim, só de Luca. Legal ouvir isso com os hormônios em ebulição, né? Fiquei tocada com a sensibilidade da pessoa. E, internamente, ri da tosquice que acabara de ouvir.

Mas não tinha nada de tosco naquela fala. Era a mais pura verdade.

Todo lugar que eu chego com Luca, por mais que eu saiba o quanto as pessoas me querem bem (algumas vezes nem tanto), ele sempre é cumprimentado primeiro. Às vezes eu sequer sou saudada. Sei que ninguém faz isso para me agredir, às vezes até o Edu se passa nisso, meu pai, minha mãe, enfim. E eu seria uma tola de achar que a coisa é pessoal. Não é. O condicionamento é social. Mas pouco importa. Esse post não se trata de bebês, mas de mulheres grávidas que se tornam mães.

A sociedade patriarcal e de consumo não vê a mulher grávida como um sujeito em profundo processo de transformação física e psíquica. Além de vê-la como consumidora de artigos caros e na maior parte desnecessários, não lhe dá espaço para vivenciar o luto de partos que não saíram como o esperado, como por exemplo uma transferência para um hospital após tentativa de parto domiciliar, ou uma cesárea, bem indicada ou não, após meses de preparação para um parto vaginal. Diante daquela nova vida, não importa o que aconteceu no parto. A mulher deve ser grata por aquele pequeno milagre que reina em seu colo a partir de então. Alias, é melhor nem entrar nos detalhes do processo, pois os detalhes só enxergam a sujeira: a placenta, o sangue, o mecônio, o vernix. A sujeira do corpo da mulher. Inclusive muitas afirmam que acham a cesárea mais limpinha. Sim, esse é o termo: limpinha.

Durante minha gravidez inteira, por todos os motivos expostos acima, nunca admiti publicamente que tinha horror à ideia de uma cicatriz na minha barriga e, após a vivencia transcendental do parto domiciliar, passei também a ter horror à possibilidade de parir num hospital. Mas eu me contive publicamente com relação aos meus medos, pois não queria ouvir nenhuma idiotice do tipo “o que importa é seu filho vir com saúde”, tampouco dar margem para aquelas histórias de terror de cordões umbilicais assassinos e mulheres inaptas a parir. Meu corpo, minhas escolhas. Mil vezes a sujeirada que Luca fez na casa na hora que saiu, que segundo o Edu ficou parecendo cenário de chacina, e  vir direto pro meu peito, que a assepsia, os bisturis e a falta de humanidade dos hospitais. Autodeterminação na veia, parte 2.

E pode parece meio agressivo, e talvez até seja, chamar de estúpidas as pessoas que insistem nessa falácia da realização feminina centrar-se na maternidade. Mas seria interessante que essas mesmas pessoas percebessem o quão agressivo e estúpido é a postura delas em anular a individualidade feminina, ou reduzi-la à experiência da maternidade, diante da grandiosidade que o evento gravidez-parto significa. 

A experiência do parto é algo tão profundo, que cada uma das horas que eu vivi antes de ter Luca em meus braços estão sendo digeridas até hoje. Eu escrevi um relato de parto menos de um mês depois do seu nascimento, e escrevi outro um ano depois. E provavelmente escreverei muitos outros, porque as emoções vão e vem, se transformam, avançam e retrocedem. Porque até hoje eu ainda estou reconhecendo o meu corpo sem ser grávida, sem ser parida, sem ser lactante. Porque até hoje eu me questiono sobre minhas escolhas e porque até hoje eu revivo lembranças daquele 31 de maio que ficaram perdidas na partolândia. Porque partolândia e maternidade são lugares diferentes, que visitamos em momentos diferentes de nossas vidas, ainda que próximos e subsequentes. E isso não deveria ser questionado por ninguém.

Deveríamos ter direito a, no momento em que decidimos nos tornar mães, viver essa escolha como agentes ativos do processo, e não passivos. Uma amiga que pariu um pouco antes que eu chegou a me confessar, diante da pressão da família por fazer logo uma cesárea (sem que as 40 semanas tivessem chegado), que pensou em sucumbir, pois não aguentava mais ser tratada como uma mera hospedeira, uma pessoa sem vontade própria, que não era importante para ninguém, apenas quem ela carregava em seu ventre interessava.

Mas na verdade, de protagonistas desse tal “milagre da vida” que somos, porque é dentro da gente que os filhotes são gerados e se desenvolvem para encarar o mundo aqui fora, estamos relegadas a último plano; pouco importa se seremos cortadas por cima, por baixo, amarradas, sedadas, agredidas, violentadas. Importa mesmo é que tem um novo ser humano chegando aí, para ser introduzido nessa roda viva de horrores da independência precoce e dos consolos artificiais.

Tal como se trata a mulheres como objeto nesse momento da vida, ainda há um resquício de tratar crianças como macaquinhos, que estão ali para nos entreter com suas caras bochechudas e corpinhos ainda meio trôpegos. Já percebeu como tem gente que acha divertido ver uma criança chorando por algum motivo... de criança? Ou que ri de uma queda de um bebê que está aprendendo a se equilibrar? É quase um deleite em cima da vulnerabilidade e da imaturidade (no sentido de um desenvolvimento que ainda está incompleto) desses seres humanos com tão pouca experiência e tempo de vida... eu acho isso perverso. Mas é como nossa sociedade, mais uma vez, trata os que considera vulneráveis. 

Sim, penso nisso tudo como reflexo da sociedade patriarcal que vivemos, que o poder político, cultural e econômico ainda é majoritariamente masculino, que atropela tudo aquilo que considera mais fraco (as crianças, como falei acima), ou ameaçador. Dentro desse espectro, é uma afronta que justo o poder de dar à luz esteja em mãos femininas. É preciso se apropriar desse corpo, deixá-lo na posição mais vulnerável possível para depois colher os louros de trazer à luz novas vidas, "com segurança". Podem me achar conspiratória, mas não consigo enxergar o mundo senão por uma perspectiva sistêmica, em que tudo está encadeado, concatenado, com pouco lugar para o acaso, especialmente quando falamos em relações de dominação. E acredito, como Michel Odent, que “para mudar o mundo, é preciso, primeiro, mudar a forma de nascer”, e sobre aquelas que são as verdadeiras responsáveis pelo nascer... nós, as mulheres.