quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Boluca vai alhures

(O mensário de novembro está sendo publicado com antecedência pela peculiaridade dos acontecimentos desse mês, passado quase inteiramente fora de nossa casa, em Brasília. No próximo, atualizo aquilo que for relevante desses últimos dias do sexto mês...)

No sexto mês, o que não faltou foi novidade na vida de Boluca. A começar pela primeira viagem de avião, as primeiras noites fora de casa e a primeira grande (e esperamos que última!) temporada sem papai por perto... Da viagem de avião não temos fotos para mostrar, não por falta de vontade, mas é que nosso personagem simplesmente chapou o cabeção no colo da mamãe na ida E na volta, acordando pra só mamar quando estávamos prestes a aterrisar... Mas tudo bem, no mês que vem tem mais viagem de avião, quem sabe ele não colabora bastante e dá até um sorrisinho pra câmera?

Sim, porque em 20 dias em São Paulo, na casa da vovó Beth e vovô João, dá pra contar nos dedos quantas vezes Luca deu uma risada gostosa pra câmera. É só ligar a dita cuja, que mininu trava a boca e arregala os olhos, já esticando as mãozinhas pra tentar pegar o objeto. Mas até que rendeu boas imagens essa viagem...

Logo que instalados, botamos Luca no chão para brincar um pouco e ele não demorou a mostrar suas habilidades recem adquiridas para os avós, rolando com desenvoltura sobre o tapete improvisado na sala, fazendo abdominal (pra tentar sentar sozinho), ficando sentado quando colocado nessa posição, empinando a bunda e... tentando engatinhar. Essa era nova até pra mim, porque em casa ele ainda estava no esquema se arrastando pra trás...

E mininu encasquetou com esses 5 movimentos/posições diferentes durante todos os dias que passamos lá, dia e noite, literalmente. Literalmente porque ele passou as madrugadas acordando de hora em hora para praticar, e claro, queria mamar depois de tanta malhação. Eu achava um barato, mas o duro é que não tinha Edu pra dar uma força quando eu já estava pedindo arrego... Era mamãe e mamãe. Quem leu as aventuras do quarto mês já sabe como eu fiquei...


Mas o progresso dele nesses dias todos foi incrível: já consegue se arrastar em direção a um objeto, rola bem pros dois lados, fica em posição de gatinho e tenta deslocar os pés, dela consegue se sentar, ainda que mantendo um braço apoiado no chão (na primeira noite em Brasília ele sentou completamente sozinho, duas vezes, mas ninguém  viu... hahaha... danadinho fazendo as coisas escondido da mamãe e do papai...), consegue abaixar e erguer o tronco sozinho quando está sentado, pega os objetos que lhe interessam, e come os pés com desenvoltura, enfiando 4 dedos de uma vez só na boca. Chegou em SP um neném e saiu praticamente outro.

Bom, a viagem não foi só malhação: nós passeamos, e muito. Eu, que andava reclamando das péssimas e inacessíveis (quando não inexistentes) calçadas de Brasília, mal sabia que estava cuspindo para o alto... São Paulo é simplesmente impossível passear de carrinho com tranquilidade. As calçadas não tem padrão, são cheias de buraco e cheias, cheias de gente... Uma loucura. Mas Luca é bonzinho, curte o carrinho, curte dormir nele, então muito pouco reclamou... Assim, andamos pelo bairro onde meus pais moram, de manhã e à tarde, todos os dias, para respirar um pouco de ar (cof, cof) puro da Paulicéia... E  fomos parar até na Av. Paulista, onde éramos literalmente o único trio mãe-filho- carrinho circulando... Frisson total, hahaha...

Pra além desses passeios, Luca conheceu muita gente nova. Amigos e amigas queridas, de longa data, com filhos ou sem, primos e primas, fato é que deu pra matar a saudade de muita gente e colocar Luca um pouco em contato com outras crianças, e foi muito divertido. Algumas ele estranhou, como a filha de um ano e meio de uma super amiga, e estamos torcendo pra daqui um ano, quando os dois estiverem mais “de igual pra igual”, a coisa se harmonizar um pouco mais, hehehe. Com os priminhos, por outro lado, foi farra pura. Luca é o mais novo dessa nova geração de primos do lado da família do meu pai, desbancando a antiga caçula, um linda garotinha de 3 anos, com quem ele mais brincou. Mas ele virou praticamente o mascote da  criançada e eu, que tive medo dele estranhar crianças maiores, que às vezes podem ser uns demônios, rsrs, foi só sorrisos com a molecada. Uma delícia.

Pra matar a saudades do marido-papai, que estava muito longe, tínhamos o skype. A conexão não era lá essas coisas, nem Luca conseguia ficar muito tempo na frente do computador sem tentar destruir o teclado ou desligar a máquina (como de fato fez um dia, cortando toda a comunicação com Edu...), mas era um barato perceber que ele reconhecia o pai na fisionomia, nos barulhinhos, na voz... bonito de ver esse elo de tanto amor.

Lições de nenenzês, a missão: nosso guri anda variando os sons emitidos, e tem, sim, dias calados, como sua mãe e seu pai também. Mas quando abre a matraca, ai, ai, ai... Ele agora anda tão espertinho que já sabe repetir alguns sons que fazemos pra ele. E às vezes eu posso jurar que estamos estabelecendo uma franca conversa, com ritmo próprio, na qual um fala, o outro responde, e todos riem no final...

Mas o que eu queria mesmo era ter filmado meu pai tentando filmar uma conversa dele com os brinquedos. Pra variar, era só chegar a câmera perto dele, que ele silenciava e ficava sério. Vovô tentava de tudo, mas nada acontecia. Uma hora ele desistiu e desligou a câmera, no que Luca automaticamente desatou a tagarelar aquelas coisas que só ele entende... Meu pai, do alto dos seus 65 anos, olha pra mim como se ainda tivesse 5 e diz: “agora ele começa a falar! Vê se pode!”...  É, a ligação entre avós e netos é indiscutivelmente singular... Coisas que só entende quem está começando a vida e quem já passou da metade do caminho... Nós, aqui do meio do percurso, só vamos nos lembrar como é isso (afinal, já fomos bebês um dia, né?) mais adiante... Por ora, só me resta, tal como Luca e eles, babar um pouco nessa relação...

Quando Luca chegou em SP, tinha acabado de ir na consulta da pediatra e estava pesando 8,5 kg, distribuídos em 66 cm de pura gostosura... No final da viagem, meus pais insistiram e lá fomos nós fazer uma pesagem numa balança de farmárcia... qual não  foi minha surpresa em constatar que, prestes a completar 6 meses, meu guri continua ganhando peso, muito peso: Passou dos 9kg com folga! Tudo à base de muita amamentação em livre demanda, que tem me ajudado a recuperar meu peso original, bem como meu manequim. Viva o leitinho da mamãe!

Mas como eu já havia adiantado no mês passado sobre os sinais que Boluca vinha me dando de que estava pronto para começar a introdução dos alimentos sólidos, nesse mês a coisa se intensificou muito. Ele baba (mais e mais) quando vê a gente comendo, e se está no colo, já vai logo tentando tomar da nossa mão. Meu pai diz que é o cheiro, eu vejo mais como curiosidade, já que ele põe tudo na boca mesmo. No fim das contas são as duas coisas juntas, porque ele já entendeu que a gente não mama, mas põe outras coisas na boca, e engole. E ele tá querendo fazer a mesma coisa. A outra coisa que eu tenho percebido é que o gasto calórico dele aumentou, com a maior mobilidade que ele adquiriu: por isso solicita mais mamadas, para repor as energias. Mas, embora eu saiba que meu leite tem todos os nutrientes que ele precisa, eu sei também que ele é muito facilmente digerido, e Luca agora está precisando de mais sustância...

Em SP, depois dele virar um prato cheio de frutas que eu tinha preparado para o meu café da manhã, fiz alguns experimentos com ele, um foi dar uma cenoura crua na mão dele, que ele demorou um pouco de pegar,  mas depois parecia o Pernalonga... E a outra foi numa lanchonete, onde eu estava tomando um saudável suco de beterraba, cenoura e laranja, que ele quase derrubou da minha mão tentando pegar, quando me ocorreu de dar um pouco pra ele numa colherinha. Ele babou metade do conteúdo pra fora, mas curtiu. Minha mãe estava junto e também quis entrar na brincadeira, mas teve a idéia de dar só a espuma pra ele. E aí mininu foi ao delírio, quase engolindo a colherinha junto. Uma farra. Eu e Edu já temos conversado bastante sobre isso e também estamos muito animados com essa nova fase dele, achamos que será um barato vê-lo provando novos sabores e novas  texturas... Isso provavelmente povoará quase todas as experiencias do próximo mês... Oba!

A volta pra casa deixou saudades nos avós, mas era muito esperada por mim e por Edu, e quando aconteceu, foi um barato o reencontro entre os dois. Luca era só risadas pro papai, se aconchegou no colo dele ainda no aeroporto, uma delícia. Chegando em casa, estranhou um pouco o “novo” ambiente, choramingou, deixou o pai encanado achando que mininu estava estranhando ele, mas nossa primeira noite juntos depois da viagem foi muito boa, principalmente porque tinha mais alguém pra tentar fazer mininu dormir. Claro, Luca ainda mantém o padrão de sono adquirido em SP, e eu tive que levantar umas duas vezes pra dar de mamar, e o Edu me levou ele mais uma logo que amanheceu. Mas aos poucos vamos entrando novamente nos eixos da vida familiar, que ficou ainda mais gostosa depois do reencontro, pela confirmação e certeza do acerto de nossas escolhas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Primeiros vícios

Nosso personagem começou o quinto mês dormindo três noites inteiras e tirando muitas sonequinhas ao longo do dia. Rendeu a mãe e o pai, que estavam com as olheiras batendo no chão... Infelizmente, a nossa alegria durou pouco e, apesar do sono não estar tão interrompido quanto no começo do mês passado, Luca tem dia que nos dá um certo trabalho pra dormir... Morto de cansado, coçando os olhos e a orelha, puxando o próprio cabelo, querendo qualquer coisa pra sugar, e nada de fechar o olho... uma tortura pra ele e pra mim, que não aguento ver o bichinho se contorcendo em reclamações...

Mas nem tudo são dificuldades e, outro dia, depois de um sono bem esticado ele acordou no meio da madrugada todo serelepe e, depois de uma bela mamada, nada do sono fisgá-lo... Fiquei um pouco com ele na cadeira de balanço, fazendo cafuné, e nada... quando fui dar o outro peito, o leite começou a voltar e eu vi que não me restava outra opção além de tentar fazê-lo dormir no berço... O pai estava acometido com uma alergia no olho e, por precaução, ficou longe do neném por alguns dias. Até então, só com Edu é que Luca topava dormir no berço. Comigo não era outra coisa que não reclamações.

Como eu sou brasileira e não desisto nunca, lá fui. Botei mininu no berço, sentei no banquinho que fica do lado justamente para essas horas e lá fiquei, munida de toda a paciência do mundo, esperando ele se render... vira prum lado, vira pro outro, levanta as pernas, pratica um pouco de nenenzês... cheira um bonequinho, cheira o travesseiro, boceja... cubro-o, ponho a mão na sua barriga e começo a balançá-lo. O guri cata meu braço e segura, e vai quietando, quietando... até que fecha o olho e dorme... Viva!!! Yes, we can! Tudo bem que minha alegria durou pouco, porque ele acordou uma hora depois inacreditavelmente com fome, mas foi tão bom descobrir que meu pequeno pode sim, dormir com a mamãe, sem o peitinho da mamãe...

Bem, no mais Boluca anda um guri cada dia mais esperto. Já entende quando o chamamos pelo nome, e se vira em nossa direção. Emite sons cada vez mais variados, gargalha com algumas brincadeiras e começou a sentir as primeiras cócegas, dando risada delas. E descobriu seu primeiro vício: virar de bruços tão logo se veja em uma superfície plana (às vezes a compulsão é tão forte, que sentado no nosso colo ele tenta realizar a manobra...). Tem dias que até dormindo o menino pende de um lado e de outro, e não raro quando vou pegá-lo no berço, ele já girou uns 200 graus... Mas nem tudo tem graça nessa fase: outro dia, no trocador, balançando de um lado pro outro, Luca escorregou e quase se esborracha no chão... eu é que o peguei já em movimento descendente... coração na mão, mas mininu nem se abalou.

Enfim, percalços à parte, fato é que, de barriga pra baixo, já não precisa de ajuda com os bracinhos, que já sabe como tirar debaixo do corpo, e consegue virar para os dois lados. Outro dia, em plena madrugada, ouvi-o acordando conversando com seus amigos de berço, e quando olhei no relógio vi que era hora da mamada... Levantei, quando chego no quarto, lá está o gurizinho, com o bumbum empinado, brincando de superman... Desvirar-se é um processo mais difícil. Ele já fez algumas vezes, mas na maioria do tempo, quando ele cansa da posição, logo começa a reclamação.

Ele também já consegue se arrastar um pouco pelo tapetinho, pra frente e pra trás, e já faz movimentos conscientes em busca de objetos que despertam seu interesse, sejam os bichinhos coloridos que ficam à sua disposição, seja o celular, o controle remoto, o computador, as almofadas do sofá e por aí vai... O cuidado está sendo redobrado, e alguns brinquedos já entraram na lista de proibidos: como ele coloca tudo na boca e começa a morder, chupar e sugar loucamente, às vezes pode ser machucar. Outro dia mesmo a gengiva chega sangrou com um desses brinquedos mais duros... Pobre do pai, que estava sozinho em casa com o bichinho. Quando eu cheguei, estavam os dois com cara de assustado, e Edu foi logo me passando o pequeno, que já não chorava, mas estava doido por um peitinho pra se confortar...

Esse mês também foi de estréia na piscina, e a farra foi boa. O guri não demonstrou medo nenhum da água, mesmo quando sua mãe quase deu-lhe um caldo – sem querer, claro... Mininu adorou aquele ambiente parecido com a barriga, só que com muito mais espaço para bater perninhas e bracinhos... Só não curtiu muito quando as crianças maiores faziam bagunça demais, espirrando um monte de água nele. Mas nada de traumas, Luca leva jeito pra lambari.

Se o primeiro vício foi virar, o segundo é sentar. Essa foi a grande novidade do mês, a capacidade de ficar sentado sem apoio, por vários minutos. Luca já vinha dando mostras de impaciência quando o colocávamos deitado, em qualquer lugar que fosse. Comecei, nessas horas, a sentá-lo e segurá-lo, e ele sempre se acalmava. Agora, quando o colocamos sentado, ele já consegue se sustentar, e até olha pra cima quando o chamamos, ficando com a postura cada dia mais ereta. Às vezes ele se empolga demais e, num movimento mais brusco, tum! cai de costas, ou de frente, hehehe... Se está na nossa cama ou no berço, nada com que se preocupar, mas no chão, no tapetinho, todo cuidado é pouco... Outro dia abriu o berreiro porque bateu a testa na comoda onde fica o trocador, enquanto eu o penteava sentado... Eu tava segurando, claro, mas mininu fez uma força pra frente tão  grande, que não consegui segurar e lá foi ele. Mas a fixação com a nova posição é tanta que ele fica fazendo abdominal, numa tentativa de se levantar sozinho: de frente, quando está no carrinho, ou semi deitado, ou de lado, quando está deitado no tapetinho.

Sentar-se sem apoio é um dos requisitos para começar a comer alimentos sólidos, já me disseram outras mães, a pediatra e as leituras que faço por aí... O outro é efetivamente se interessar pela comida dos adultos. Ao que parece, Luca puxou da mãe e do pai o gosto pela comida e não pode ver a gente comendo que para o que está fazendo para olhar, na maior curiosidade, o que tanto a gente põe na boca... Já por duas vezes ele tentou tomar uma fruta da minha mão até que não resisti e satisfiz sua curiosidade. Comendo uma mexerica, tirei o caroço de um dos gomos e aproximei da boca dele... Mininu começou a chupar aquilo com gosto, e quando tirava de perto, me olhava com uma cara de “por que parou, parou por que?”... E anda cada dia mais ousado: outro dia Edu tava tomando sorvete, com Luca no colo, e não é que mininu mete as patinhas no pote e abre o bocão, como quem diz “eu quero, eu quero!”? Dias depois, descobri que quem dá mole com o sorvete é o pai, pois Letícia, sua filha mais velha, também já tentou fazer o mesmo quando era bebê. Tudo devidamente registrado e arquivado pela vovó Elaine.

Bem, com os seis meses se aproximando, uma nova fase vai se inaugurar na vida dele. Não dependerá só de mim para se alimentar, e experimentará um novo mundo de cores e sabores na vida. Não sou daquelas que acha que a transição para a alimentação complementar é uma ciência exata, que precisa começar no seu 180º dia de vida. Pelo contrário, sempre achei que seria necessário observar os sinais dele, e ele já está me dando. Com isso, minha meta de completar 6 meses de amamentação exclusiva está cada dia mais perto de ser cumprida, e com sucesso, afinal Luca só ganhou peso durante todo o tempo, estando sempre – um pouco – acima da curva de crescimento. Assim, quando ele completar seis meses, vamos fazer a coisa sem pressa, primeiro despertando nele a curiosidade, o interesse e o prazer em se alimentar de outra coisa que não de leite. E até que eu efetivamente volte ao trabalho e ele vá pra creche, continuarei fazendo do meu leite sua fonte principal de alimento. Aos poucos, ele irá variando seu cardápio e buscando o que precisa para continuar crescendo forte e saudável de outras fontes. E continuará com o leitinho pelo menos até um ano, quando pretendo começar o desmame do meu bezerrinho.

Com isso, ninguém sai perdendo, nem ele, que continua contando com todos os nutrientes que só o leite materno proporciona, nem eu, que amo amamentá-lo com algo que meu corpo por si só dá conta de produzir, vendo aqueles olhinhos me olharem, aquela boquinha vazando leite e aquele sorrisinho banguela satisfeito depois de encher a pancinha...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Enquanto o Seu Sono não vem...

Nosso protagonista entrou o mês com quase 7 kg de pura gostosura, com coxas que dá vontade de comer... Desde que nasceu, Luca praticamente dobrou seu peso e cresceu quase 10 cm, só com o leitinho da mamãe. Pra carregá-lo pra lá e pra cá, só com muita malhação, já que no sling anda um pouco difícil de ficar, porque o tempo não está ajudando e Boluca é pra lá de calorento, acho que mais até do que o pai...

A mãe de primeira viagem aqui, com medo da ventania no Parque da Cidade nos dias de ginástica, outro dia quase que frita o garoto, agasalhando-o como se fossem os dias mais frios de julho... Claro que o menino chiou, e não foi baixo, mas eu nem me toquei. Foi preciso as outras mães cantarem a bola até eu me convencer que precisava mudar o guarda roupa do guri... Nem a gritaria no carro, na hora de voltar pra casa, tinha me feito perceber que alguma coisa podia estar errada com as roupas dele... Agora, todo dia procuro uma sombra bem grande pra parar o carro e não deixar a cadeirinha dele fervendo, e logo que chegamos em casa, largo ele só de fralda brincando enquanto tomo um banho. E, claro, como ele já perdeu mais da metade das roupas que ganhamos e compramos para o seu nascimento, saímos pra comprar novas peças... as mais baratas, e em pouca quantidade, porque pra perder não demora muito...

Do terceiro para o quarto mês, muita coisa mudou. Já tinham me dito que esse era um momento particularmente intenso, mas só vivendo para saber. Luca entrou numa fase desafiadora justamente nesse período. Seu HD anda processando tudo em altíssima velocidade, e a grande mudança do período foi começar a conseguir agarrar o que antes só observava, e a se dar conta do mundo e das pessoas à sua volta.
Ele anda mais interessado em olhar pra gente, e interrompe com facilidade a mamada só pra ficar me encarando, silencioso e sério... aí abre o sorrisão banguela e eu ganho o dia... No espelho, ele começa a dar sinais de interesse na própria imagem também, e já deu até um sorrisinho, bem tímido. Outra novidade foi ele se interessar por bebês. A gente sempre vai na pracinha aqui do lado do prédio e ele nunca nem tchum pras outras crianças... Outro dia, com o filho de 9 meses da vizinha, foi sorriso pra lá, conversa pra cá, uma farra... espontâneo e imprevisível... Assim são os bebês, estou aprendendo mais a cada dia...

Com tanta informação na cabeça do bichinho, o resultado foi um mês pra lá de agitado, de muito choro e demanda por peito, colo e atenção, e noites com muitas interrupções. A coisa melhorou ao longo do mês, mas as coisas mudaram bastante por aqui... Pra piorar, o clima desértico de Brasília nessa época deixa qualquer um de nós com a garganta e o nariz ‘arranhados’. Ou seja, com mais sede. Luca andava acordando todo incomodado, quase como se estivesse com pigarro... Tudo bem que no finzinho do mês a chuva caiu, mas ainda é pouco pra tantos meses de seca... Aí já viu, junta tudo e quem paga o pato é o sono, meu e dele, que não andou lá essas maravilhas...

Aliás, foi o contrário de maravilha. Se até o terceiro mês ele vinha dormindo cerca de 8 horas seguidas, num piscar de olhos, isso virou exceção... Nem preciso dizer que eu e Eduardo andamos um tanto acabados com essas maratonas notívagas do nosso personagem. Acordando muito pra mamar, mas também pra ganhar um dengo... Eu pedi penico algumas vezes, que se não é o pai para segurar a onda, surtaríamos mãe e filho. Bom, basta dizer que esse mês foi a primeira vez que senti vontade de acender um cigarro desde que engravidei – e não foi só uma vez. A idéia que sempre ouvi falar de que o aniversário de um ano é uma comemoração da mãe, e não do bebê, nunca fez tanto sentido pra mim... Sobreviver a ele é uma prova de fogo... e ainda nem chegamos na metade, hein...

Outra coisa que começou a fazer sentido esse mês pra mim foi a tal história dos picos de crescimento e desenvolvimento. Quando eu estava grávida, absorvi muita informação sobre a gestação e o parto, mas também busquei entender algumas coisas sobre recém nascidos. Nada que se compare com a prática, mas uma das coisas que eu li, e estou constatando ser a mais pura verdade, é que os bebês crescem e se desenvolvem aos ‘saltos’, com períodos em que o cérebro trabalha mais, e adquirem novas habilidades, e épocas em que a demanda por leite é mais intensa, resultando num crescimento e num ganho de peso repentino. Saltinho looongo esse... e dizem que vem mais por aí.

Com ou sem saltos, Luca vem explorando como nunca seu mundão novo, e percebendo que pode fazer várias coisas que não sabia antes. Desde o primeiro mês, sempre achei que Luca era mais ‘durinho’ que outros bebês de sua idade, o que era confirmado pelos comentários de outras mães. Deixei de carregá-lo deitado logo que ele completou um mês e atualmente, ele fica no colo todo retinho, e a cabeça já não fica pendendo prum lado e pro outro. Quando damos os dedos pra ele segurar, ele dá impulso e se senta. Se o colocamos na almofada de amamentação, com um apoio nas costas, ele já consegue dar um impulso pra frente e ficar ‘sentado’, ou tentando agarrar algum objeto que esteja por perto. Ainda vai demorar um tempo pra esse movimento dele se completar, e ele sentar sem nenhum apoio, mas é um barato ver a ousadia dele...

O garotinho também anda achando que pode ir pra onde quiser agora. Quando está no trocador, se não ficamos de olho, lá está ele rolando de um lado pro outro, tentando se esborrachar no chão... Aí ele aprendeu que pode dar impulso com o pé usando a parede, não sei exatamente pra que, mas ai de mim se não fico de olho... No trocador também ele tem curtido fazer cocô e xixi, particularmente quando é o pai que se propõe a trocar a fralda. Ainda estamos tentando descobrir porque dessa fixação, e se tem alguma relação com o fato de que as golfadas e os vômitos também sempre são em maior quantidade quando está no colo do Edu...

A busca por se virar, porém, seguiu incansável ao longo de todo o mês. Seja no trocador, no tapetinho, e até mesmo no berço é um barato o corpo dele pendendo pro lado tentando alcançar algum objeto ou então virar de bruços. Deitado no tapete, brincando, ele consegue girar uns trocentos graus em questão de minutos, enquanto tenta se virar, chegando a sair da área do tapete se a gente não fica de olho. E eis que nos últimos dias desse mês, ele completa o movimento sem ninguém ver? Estamos eu e Eduardo sentados no sofá conversando e ele brincando no tapete. Quando eu espicho o corpo pra dar uma olhada, o guri tá lá, de bruços, quietinho, sem chorar, sem reclamar... Fiquei com uma raiva, mas eu já sabia que era questão de tempo, pois o menino tava parecendo um contorcionista... agora que começou, também não para mais.

Então, apesar do nosso cansaço, a gente se diverte com a alegria dele com as pequenas coisas que vão acontecendo a cada dia... como a descoberta de que o peitinho e suas mãos não são as únicas coisas que podem ser levadas à boca... um dia é a borboleta, outro o leão, outro a girafa... de longe, o preferido de todos é o polvo, talvez porque suas pernas sejam fáceis de agarrar, e o tecido deve pegar bem nas suas papilas gustativas, por não ter pelinhos... rsrsr... Ah, sim,  não são exatamente só os brinquedinhos coloridos que compramos pra ele que interessam mais, mas sim o computador, o celular, o controle da TV, uma fruta que a gente leve à boca... ou seja, tudo o que papai e mamãe pegam, ele quer pegar também... E, cada dia que passa, o movimento de buscar com a mão vai ficando mais consciente, no melhor estilo “me dá!”....

A exploração dos pés também seguiu firme e forte esse mês. Ele não pode ver um pé, seja o dele, desenhado ou de brinquedo, que fica fixo na idéia de pegá-lo. E algumas vezes já consegue, quando está sentado, ou no colo da gente. E fica lá, babando o dedão todo dele, parece que tá chupando um picolé... Só não entendeu ainda que pra por na boca é mais fácil se ele estiver deitado. Mas como tudo na vida dele, é questão de tempo.

Ah sim, nosso pequeno começou a mostrar suas preferências, e tem horas que não curte de jeito nenhum a posição de decúbito dorsal (o  famoso deitado de barriga pra cima, rsrsr)... Então eu gosto de colocá-lo sobre a minha barriga, pra ficar brincando com seus pés, enquanto ele dá risada dessa nova vista. Aí, de vez em quando, ele dá um impulso pra frente e fica de bruços. Se é em cima de mim, já sai procurando o peitinho, claro...

Bom, e acho que tantas atividades novas devem dar muita fome, porque o bichinho anda mamando como nunca... Além de estar sugando com mais força, e uma quantidade maior de leite por vez, tem acordado mais vezes querendo mamar (a gente até tenta enganar com a chupeta, mas não tem conversa). Outra noite, botei ele na nossa cama e ele passou a noite inteira pregado no peito... um verdadeiro piercing de mamilo. Ainda bem que meu corpo tem correspondido à demanda e o leite não  tem faltado.

As aulas de nenenzês seguem firme e forte, com Luca inventando novos sons a cada dia, praticando-os repetidamente. A onda agora é ensina-lo a mandar beijo. Ele adora quando ouve o som estalado, e até já  tentou praticar um pouco, mas ainda  tá fraco. Com estranhos ele também ainda fica um pouco tímido, e se solta mesmo com o papai e a mamãe, que suam a camisa para aprender o novo idioma... E tapem os ouvidos, porque nosso protagonista agora descobriu que, além de garagalhar, pode gritar. E que gritar não precisa ser necessariamente uma reclamação, pode ser pra mostrar alegria. E, quando o papai liga o rock’n roll no iPod, o menininho fica loooouco de tanta excitação...

As aulas de ginástica também seguem sem vacilar e, se a pança de Boluca aumenta a cada dia, a da mamãe aqui começa a dar tímidos sinais de que vai se recolher... Apesar das noites insones, esse mês consegui até passar uma manhã no salão, fazendo banho e tosa completos, coisa que fiz pela última vez ainda com a pança proeminente... É, quem me conhece sabe que não sou muito vaidosa, nem frequento salão toda semana, mas imaginem minha situação depois de 4 meses sem um tapa no visual... Luca ficou numa boa com o papai, sem chorar nem reclamar (muito). Claro que quando me viu só queria saber de quê, de quê, de quê? Peitinho, é claro...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Lições de nenenzês


O terceiro mês de Luca trouxe várias novidades, mais do que o primeiro e segundo juntos. É bacana perceber como ele interage mais e presta mais atenção ao que acontece à sua volta. E cada  vez que algo lhe chama a atenção, lá vai a mão pra boca... Parece que é o jeito que ele tem de demonstrar que está experimentando algo novo, rsrsr... Bom, tudo bem que de vez em quando é só fome mesmo.

Nesse mês, investimos na idéia de que a rotina faz muito bem aos bebês, e a coisa tem dado certo. Depois do pacto do mês anterior para a ginástica da mamãe, passamos a ter horários mais ou menos regulares para acordar, tomar banho e brincar no tapetinho de atividades, aquisição mais que bem sucedida para essa fase, na qual qualquer estímulo que tenha cores ou sons deixa o bichinho vidrado.

Então, após a mamada matinal, fazemos exercícios, seja no parque, seja a  caminhada aqui por perto de casa, e sempre rola uma soneca no carrinho, uma delícia. Ao retornar, ele fica brincando no dito tapetinho enquanto eu tomo um banho e faço um lanchinho para repor as energias – registro que nem sempre essa última parte eu consigo fazer sem ele no colo... e mamando.

E de brincadeira em brincadeira, Luca está quase se virando, para tentar alcançar alguns objetos que estão no tal tapete. E anda ficando muito bravo porque ainda não conseguiu completar o movimento... Mas se assusta se eu o faço virar. Quase todo dia eu o coloco de bruços para fortalecer a musculatura das costas e o avanço é impressionante. Nos últimos dias ele parece um pavão, de tanto que levanta a cabeça quando está de barriguinha pra baixo... E de vez em quando ele já se desvira sozinho, não sem tomar um bom susto por causa disso também, rsrsr... mas tudo bem, porque se ele chora, sempre tem o colinho da mamãe bem rapidinho para acalmá-lo...

Ele já anda tentando pegar alguns objetos, interage com os bichinhos, mas reclama muito porque suas mãos ainda não obedecem suas vontades... mas fez avanços esse mês, e alguns objetos, por vezes, já chegam até a boca. Os pés foram a grande descoberta do mês: passamos algumas tarde e outras madrugadas tentando entender o que é aquilo que parece uma mão, mas que fica mais longe e ele ainda não consegue por na boca... 

Nosso personagem agora também é professor: ministra, diariamente, aulas de nenenzês, através de sons, grunhidos, tons agudos e muitos outros. Vamos tentando acompanhar e, quando acertamos a lição, Luca responde dando risada, fazendo barulhinhos, balançando o corpo todo e dando uns impulsos pra trás que ai de quem não estiver atento... Ah sim, ele já não está mais gostando dessa idéia de ficar o tempo todo deitado. Até no tapetinho o prazo de validade tem diminuído. Aí, se colocamos várias almofadas, ou um encosto na almofada de amamentação, ele já fica sentadinho, muito atento olhando slides de fotos no computador ou então assistindo Discovery Kids e os canais de notícias, seus preferidos...

Quando vai chegando perto do almoço, Luca toma banho, de balde, se preparando para a soneca da tarde. O tempo dessa soneca varia muito, e tem semana que dura umas boas 3 horas, e aí ele acorda, mama e descemos pra um solzinho... Outros dias, dura uma hora, ele mama e dorme na sequencia, numa soneca meio picada, e outros dias, dorme hora nenhuma, chegando ao limite da irritação no fim do dia porque não pregou o olho... Definitivamente, Bolota puxou à mãe...

No que tange ao amor pelo banho, a coisa não foi inata, não. Luca aprendeu a gostar de entrar na banheira mesmo só esse mês, pois no começo ele não curtia muito. Assustava bastante, talvez pela insegurança dos pais inexperientes em segurar o menino todo escorregadio – no primeiro mês eram os dois pra dar banho nele!.... E a gente não forçava muito, até porque no começo ele só queria saber de mamar e dormir. Então fomos deixando ele indicar pra gente a necessidade dele. Mas antes que nos acusem de estarmos criando um cascãozinho, quero deixar claro que ele nunca passou mais de dois dias sem ver a água na banheira... e entrar nela...

Hoje em dia, além do banho de balde, ele toma outro, mais à noite, na banheira, pra ir dormir limpinho e fresquinho. Exceto quando está com muita fome, muito sono ou algum incômodo muito forte, ele se diverte molhando o cabelo, o rostinho, a barriguinha e as dobrinhas, que se multiplicam a cada dia... tudo acompanhado de muita conversa no melhor nenenzês que eu aprendi a falar até agora...

Depois de cada banho, Luca tem direito a um vale-massagem, que ele utiliza quando está com paciência pra tal. Sim, porque tem dia que a agonia pelo peito é tanta que eu já agradeço se consigo vesti-lo antes dele abrir o berreiro... Mas quando rola, é uma delícia, pra ele e pra mim, que tenho uma ótima desculpa pra ficar pegando naquele corpinho todo gordinho e gostosinho...

Bem, não me perguntem como, mas de uma hora pra outra parece que Boluca virou um polvo, pois adquiriu muito mais braços e pernas do que tinha quando saiu de dentro de mim... mexe todos ao mesmo tempo e é uma dificuldade pra conseguir limpá-lo quando vamos trocar a fralda e, pior, colocar a fralda limpa, porque tem vezes que o guri ‘trava’ as pernas e é impossível fechar a dita cuja desse jeito... Ele também costuma entrar em modo polvo quando está mamando, e é uma agitação tão grande – com direito a gritinhos mais ou menos irados, a depender do momento – que o bichinho nem consegue sugar o peito direito. Quando isso acontece, das duas uma: ou precisamos de uma pausa para o arrotinho, ou o sono pegou de  verdade... geralmente são as duas coisas juntas...

Ao fim do dia, os encontros com o papai quando ele chega do trabalho são momentos de excitação pura. Geralmente Edu chega no fim do banho ou já na hora da mamada antes de dormir, e aí quando ele se senta ao meu lado no sofá, Boluca não sabe se suga o peito ou se torce o pescoço pra ver o pai. Nessa horas, a gente sempre estica um pouco a hora de dormir, para eles poderem se curtir. Só não rola quando o cansaço tá muito grande... E quando Edu viaja? Ele não parece perceber a ausência do pai no dia-a-dia, mas o reencontro é marcante,  seja a hora do dia ou da noite que acontecer. Ainda que às vezes Eduardo não acredite, eu que passo o dia todo com ele, me impressiono com o vínculo existente entre eles.

Bem, mas apesar da rotina que temos tentado seguir mais ou menos à risca, sempre tem os imprevistos. Esse mês ele bagunçou o coreto algumas vezes, ficando sem dormir duas noites seguidas, história que eu contei em “Uma rave sem aviso prévio”. Depois passou algumas noites acordando duas ou mais vezes de madrugada pra mamar – coisa que só tinha acontecido durante as primeiras semanas -, deixando a mamãe aqui profundamente irritada e sem paciência, não com o neném, claro, mas com a privação de sono, que me deixa desnorteada mesmo... Mas já passou e esse mês ele tem dormido super bem, média de 8 horas seguidas. Outro dia nos agraciou com uma noite completa: foi dormir de noite e só acordou de dia.

No mais, Luca tem saído bastante para conhecer o mundo, quase sempre agarradinho na mamãe, dentro do sling. Acho que essa deve ser uma invenção quase tão antiga quanto ter filhos e nós, mulheres ocidentais, só estamos adotando-a pra valer agora. Além de ser uma delícia ficar coladinha no seu bebê, o sling nos deixa com as mãos livres para fazer outras coisas. Já cansei de andar com ele pendurado dentro de casa, quando ele estava nos dias mais difíceis,  e fazia mil coisas com ele amarrado em mim, inclusive comer.

Tal qual o banho, o gosto pelo sling não é inato (apesar dele ficar quase na mesma posição de quando estava na barriga), e foi preciso ir introduzindo o artefato aos poucos... Primeiro quando estava dormindo, depois passeando dentro de casa mesmo, até ganharmos, juntos, o mundo. Hoje ele adora, exceto quando está com fome, porque aí o cheiro do leite deve ser uma tortura pro bichinho... ou quando está com sono, porque com sono ele não gosta de nada mesmo... Já falei que ele é igual a mamãe nesse quesito? Enfim, e o carrinho mesmo só usamos quando vamos comer fora, para ele ter onde ficar enquanto a gente come – já que ainda não sabe sentar – e durante a ginástica da mamãe que, diga-se de passagem vira uma verdadeira corrida com obstáculos tamanha a falta de qualidade de nossas calçadas...

Nessas andanças, Boluca já conheceu um bocado de tios e tias e até ao cinema já fomos juntos, assistir Os Smurfs, no projeto Cinematerna, do Cinemark, que rola em várias cidades do Brasil. e não é que ele prestou a maior atenção no filme? Não todo, é claro, mas me surpreendeu. Eu é que achei trampo demais ir só com ele, e acho que vou de novo se estiver muito a fim de ver o filme da sessão, ou se Edu estiver junto.

De toda forma, é muito engraçado ver como em dias assim, de lugares e pessoas novas, ele capota depois que chega em casa. Deve ser o jeito dele de processar tanta novidade. Ele ainda não interage muito, mas salta aos olhos de todos como ele é um menino compenetrado, que  fica encarando tudo que é novo. Olhos esbugalhados, bicão e, de vez em quando, um sorriso.

Bom, por fim, esse terceiro mês trouxe também a capacidade de imitar alguns barulhos que a gente faz pra ele e, o mais gostoso, a primeira gargalhada... boquinha aberta e risonha, olhinhos fechados e muita excitação...  quando a gente ri junto, ele para e olha sério. Hahahaha... Com o fim do primeiro trimestre de vida, está vindo também a consciência de que não mora mais numa barriga... a transição não está sendo fácil e o remédio tem sido muito peito, muito colo e muita paciência, pra que a coisa flua bem e ele supere esse momento. Então nem preciso dizer que as reclamações também andam mais enfáticas e potentes. Boluca não economiza quando quer mostrar sua insatisfação com alguma coisa, dando os primeiros sinais de sua personalidade... Basta ser contrariado naquilo que estava esperando ou desejando que acontecesse, que a gritaria é certa. É... e para bom entendedor, meio grito é suficiente...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Primeiras peripécias

Outro dia recebi um email que achei um barato. A mãe, hiperativa como esta que vos escreve, se dedica a, uma vez por mês, registrar as principais ocorrências com seu pimpolho, um sorridente guri de 8 meses de idade. Eu, que sempre gostei de escrever e até criei um blog para registrar minhas impressões e sensações sobre a gravidez e maternidade, adorei, e resolvi copiar a idéia. Fico pensando que Luca poderá curtir esses relatos quando tiver idade para entender. Ou o contrário, vai odiar essa mãe bocão, que fica contando todos os micos dos seus primeiros meses de vida. Bem, mas vou correr o risco. Na pior das hipóteses, quando ele tiver idade pra entender, quem vai curtir lembrar desses dias serei eu...

Bem, o que acontece é que Luca está com quase três meses e vai ser difícil resgatar o que aconteceu até aqui de forma sistemática. Assim, esse primeiro texto tratará de relembrar um pouco do primeiro e do segundo mês e, a partir do próximo, farei a coisa mensalmente. Espero que ele deixe!

Eu já contei aqui que Luca nasceu em casa, mas acho que não mencionei que o primeiro mês foi passado praticamente inteiro dentro do apartamento. Eduardo tirou uma licença paternidade por conta própria – como é bom trabalhar para si mesmo! – e ficou os 30 primeiros dias de vida  de Luca lambendo a cria e cuidando da mamãe aqui, pra que ela pudesse comer bem pra ter bastante leite, e pudesse dormir quando o neném dormia.

Saímos pouquíssimas vezes, uma pra tomar vacina, outra pra resolver burocracias de licença-maternidade – afinal, eu tenho chefe – e umas outras duas, sempre muito rápidas. Nessas saídas, descobrimos que o carro era um ótimo sonífero para recém nascidos, pois era Luca entrar, pra não mais acordar. Não que ele tivesse problemas para dormir nesse começo, pelo contrário, era mamar e chapar, no carrinho, no berço, na nossa cama... infelizmente, quando foi chegando perto de completar um mês, tudo mudou, e a gente teve que descobrir alguns truques pra fazer o bebê capotar – e nos deixar dormir também...

Uma feliz descoberta do mês foi o livro da Laura Gutman – A maternidade e o encontro com a própria sombra -, excelente para lidar com os hormônios do puerpério e descobrir que sim, o neném sente tudo que a gente sente, o que nos obriga a assumir uma outra postura diante da vida se quisermos ter alguma tranquilidade. Porque o nervosismo, quando vem, chega em dobro, literalmente – o nosso e o deles. O segundo achado foi o Dr. Karpp, autor do livro “The happiest baby on the block”, no qual eu aprendi a enrolar Luca bem apertadinho no cueiro e a fazer “sshhh, sshhhh” no ouvido dele quando ele ameçava despertar, expedientes valiosíssimos adotados após cada mamada sonífera...

A outra descoberta é que eu não tinha parido um bebê humano, mas um bezerro, que não desgrudou do peito praticamente o mês inteiro. A mamãe aqui, determinada a amamentar exclusivamente por 6 meses, resolveu sublimar, e não foram poucas as vezes que o peito vertia leite e os olhos, lágrimas. Me convenci que só assim, me entregando a todos os sentimentos, bons e ruins que aparecessem, pra não secar o leite, e assim seguimos muito bem até hoje, obrigada. Os mamilos ficaram resistentes após contraírem um fungo, e hoje ele mama feliz da vida, me fazendo rir a cada vez que me olha com aquela boquinha vazando leite...

No mais, foi um mês sem muita rotina, apenas seguindo as orientações de Luca quanto aos horários de comer e dormir. Eduardo cozinhava enquanto eu dava de mamar e, quando ele dormia, a gente comia, e depois eu dormia. Quando ele não dormia, a gente se revezava na mesa pra comer e depois lá ia eu tentar fazer o guri dormir de novo.

Por fim, quando a coisa tava realmente bagunçada, lá pela terceira semana, e Luca não largava o peito e eu me sentia exausta, decidimos tentar uma chupetinha. Passamos a gravidez inteira demonizando a dita cuja, pra pagar a língua tão cedo... que raiva, mas íamos tentar com uma chupeta cheia de frescuras, pra não atrapalhar a amamentação, não dar problema no céu da boca etc., etc., etc... Fizemos uma rápida pesquisa e tenho certeza que  compramos o produto mais caro disponível. Trouxemos o artefato para  casa, faceiros e certos de que assim, ele sossegaria. Ferve água, esteriliza o objeto, pega o neném, põe no colo, oferece a chupeta e... Luca mostra para mamãe e papai uma habilidade inata: arremesso à distância. A gente é brasileiro e não desiste nunca, até hoje apelamos pra ela em momentos de desespero... mas acontece que Luca também é brasileiro... e foi aperfeiçoando-se na técnica de cuspe de chupeta à distância. E, no final das contas, acabou que ela nem foi tão necessária assim.

Pra fechar o mês, na primeira consulta com a pediatra, que já tinha sido escolhida no sexto mês de gravidez, saímos orgulhosos de constatar o que nossos olhos não nos deixavam com dúvidas: o leite materno é realmente poderoso, pois nosso filho havia ganhado mais de 1 kg e crescido 3 cm.

No segundo mês, eu me vi às voltas sozinha com um bebê em casa. Dar de mamar, trocar fralda, dar banho, por pra dormir, brincar – bom isso nem tanto, porque bebês nessa idade só querem saber de peito – e ainda comer e tomar banho pareciam coisas inconciliáveis. Pra piorar, Luca passou uma semana sem tirar uma sonequinha sequer à tarde, aumentando minha agonia. Mas até que nos viramos bem, pois de noite ele estava dormindo entre 6 e 8 horas seguidas. Pra mamar, bem, pra mamar ele nunca teve problema...

Na segunda semana, vovó Beth – minha mãe – chegou de São Paulo cheia de dengos para o primeiro netinho e de mimos para a mamãe aqui. A empatia entre os dois foi imediata e eu só fiquei observando como é que se dá uma canseira em um bebê... Luca voltou a dormir de tarde, e o melhor, continuou dormindo um monte de noite. Tem coisas que só a sua mãe faz pra você... Vovô João e tia Paula se juntaram à família Buscapé e o que se via era um bebê literalmente boquiaberto com tanta gente nova por perto...

Nesse mês, as saídas aumentaram, incluindo banhos de sol de manhã ou no fim da tarde, e alguns almoços fora de casa, que mamãe também precisa olhar um pouco o mundo, pra lembrar que ele existe...

O segundo mês de Luca no mundo foi também o mês do aniversário da mamãe. Bem, 31 anos não tem o mesmo glamour que os 30, e com um bebê no colo, minha maior comemoração, eu não estava esperando muito coisa... Tivemos visitas nesse dia, mas o principal acontecimento foi a deferência de Luca com sua progenitora, presenteando-a com um jato amarelo de cocô que se espalhou por todo o quarto e por pouco não acerta o papai, que estava ingenuamente trocando uma fralda. Vovô João, por SMS,  deu a sentença: fica tranquila que é só o primeiro. Bem, ainda não fomos agraciados novamente, mas o episódio serviu pra ficarmos mais espertos quando ele resolve fazer força...

Esse mês foi particularmente interessante porque nosso protagonista começou a esboçar sorrisos, e também a interagir mais, emitindo sons diversos, e por vezes dando a todos a impressão de que iria falar! Hahahaha... Os sorrisos eram puro interesse, pois ele só fazia isso quando sabia que o pegaríamos no colo ou daríamos de mamar. E ai de quem não entendesse o recado: seria alvo de suas potentes cordas vocais! Engordando a cada dia, ganhou um apelido: Bolota. E, para fazer frente ao ganho de peso, que já passou dos 6kg, exercícios diários para fortalecer a musculatura do pescoço. Até que ele não se queixa de ficar de bruços, mas é bom registrar que a paciência dele nessa posição ainda é pouca...

A retomada dos exercícios físicos pela mamãe, para recuperar a forma perdida com a gravidez – ou então ganhar uma nova, desde que o manequim volte a ser o mesmo - foi outra novidade. Descobrimos uma ginástica super legal, que rola no Parque da Cidade, aqui em Brasília, que incorpora os bebês nos exercícios. A gente leva eles no carrinho, sai pra fazer caminhada, corrida, trabalhando as partes do corpo onde oestrago é maior... No começo Luca estranhou um pouco ter que ficar no carrinho tanto tempo seguido, e chorou bastante, não deixando a mamãe aqui fazer a aula completa. Mas já no terceiro dia entramos num acordo: eu deixava ele de barriga  cheia antes da aula e ele topava ficar no carrinho por uma horinha, deixando a mamãe se exercitar.

A parceria deu tão certo que passamos a sair todos os dias pela manhã pra passear: três dias na ginástica, dois dias uma bela caminhada nos arredores de casa. E, na volta, ele ainda me deixa tomar banho e comer uma frutinha para repor as energias antes da mamada pós-exercício... Que filhote tão bonzinho que eu tenho, rsrsrs...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Por uma razão instintiva

Nessas andanças com Luca por aí, tenho visto e ouvido muitas histórias sobre gravidez, parto e amamentação, e no vasto mundo da internet, o que não faltam também são artigos provocando reflexões importantes sobre esses momentos, comum a todos os mamíferos. E tenho pensado que nós, humanos, seres mamíferos dotados de razão, talvez por essa mesma razão sejamos os animais com maior dificuldade para levar adiante esses processos, que são tão instintivos. Ao longo de milênios, as mulheres levaram adiante a humanidade gerando, gestando, parindo e alimentando sua cria, e eis que chegamos à civilização contemporânea e bum!, parece que tudo mudou.

E eu, vendo tudo isso, sabe, preciso desabafar.

Passou-se a esperar de nós um comportamento pré-determinado e racional, além de recatado, suave e submisso, deixando a tarefa de parir aos médicos – homens, pois demorou até que algumas de nós se tornassem médicas – depois que as parteiras também foram excluídas desse processo tão natural, tão fisiológico. A partir daí, começaram um sem número de intervenções, de agressões, de invasões ao nosso corpo – agulhas, bisturis, cortes, amarras... e traumas, muitos traumas, fazendo boa parte de nós pensar no parto como uma experiência de sofrimento, não de superação. Fazendo-nos pensar na amamentação como uma prisão, não como um ato único de amor, do qual somente nós mulheres, somos capazes.

Junte-se a isso toda a propaganda dos meios de comunicação sobre o momento do parto. Tal qual o sexo, o parto e a amamentação também são profundamente idealizados, coisa  de donzelas, e mais recentemente, de mulheres autônomas e com carreiras bem sucedidas, que se viram nos 30 para conciliar tantas jornadas. Deixa-se totalmente camuflado o lado mais irracional da coisa, o lado bicho-fêmea, que todas nós temos dentro de nós, e que precisamos explorar e expressar se quisermos viver essa experiência por inteiro. O tal do instinto materno, sabe?

Mas esse tal de instinto, atualmente, anda muito em baixa, banalizado e distorcido nas capas de revistas e nos temas de novelas, ao procurar impor a nós mulheres um estereótipo de mãe que simplesmente não é plausível. O parto que acontece LOGO DEPOIS que rompe a bolsa, a chegada de um neném angelical, silencioso e limpinho para os braços da mãe, que amamenta com um sorriso nos lábios SEMPRE. E, quando nos rendemos a esse formato, simplesmente deixamos de acreditar na capacidade que nosso corpo possui de gerar, gestar, parir e alimentar nossa cria.

E aí, quando a bolsa rompe e o neném demora a nascer, logo achamos que não temos dilatação; quando ele nasce, e não mama – após, registre-se, ter sido submetido a uma separação brusca de nossos corpos, e a toda sorte de intervenções -, damos-lhe fórmulas, pois nosso leite é fraco, ou porque o neném não gosta de mamar no peito.

Oras, mas então como é que a humanidade chegou até aqui quando não existiam bisturis nem mamadeiras?

Bom, claro que existem histórias e histórias, dificuldades existem, e a ciência está aí para nos ajudar a superar essas dificuldades e, muitas vezes, salvar vidas. Mas. afora os casos em que há riscos concretos para mães e bebês, ajudar é totalmente diferente de nos alijar de um processo que é nosso, de fato e de direito. Toda mulher é capaz de parir. Toda mulher tem leite. As coisas às vezes podem não fluir com perfeição, mas com incentivo e apoio emocional dos que nos cercam e nos assistem, tudo pode ser superado. Enquanto algumas de nós continuar duvidando disso, continuaremos sendo controladas por um sistema que busca apenas o lucro, seja com as desnecesáreas, seja com as fórmulas que imitam o leite.

Não, não é fácil parir. Não, não é fácil amamentar. Sim, as contrações doem, são demoradas, o processo de transição para expulsar o bebê é uma loucura e nos faz crer que não vamos sobreviver àquele momento. Sim, os bebês sugam com uma força inacreditável para seres tão pequenos e supostamente indefesos; os mamilos ficam sensíveis, podem rachar e apresentar fungos em função do contato com a boca do bebê e o ambiente úmido criado pelo sutiã e pelas roupas.

Mas, sim, é preciso aguardar o sinal do bebê que ele está pronto para vir, e essa espera pode gerar muita angústia e nos fazer pensar que esse momento jamais virá. E, sim, é preciso ter paciência e esperar o tempo do mamar do bebê, que pode ser de 8 minutos de relógio, como disse a pediatra de Luca sobre outro paciente dela, como de 1 hora, como já vi meu filho ficar no meu peito – e sem dormir – pra recomeçar meia hora depois.

Seguir nossos instintos, porém, por vezes, desconcerta aqueles que estão por perto, acostumados a uma  sociedade mecanizada, onde o bom é conseguir prever e controlar processos. E acabam nos constrangendo a fazer o oposto do que nosso instinto fêmea nos diria pra fazer, se estivéssemos atentas a ele. Uma mulher, nua, suada, descabelada, gritando para expulsar seu bebê de dentro dela não é uma imagem fácil de lidar. Então é melhor, num momento em que estamos extremamente vulneráveis e fragilizadas, fazer o que esperam de nós, e aceitar a assepsia do centro cirúrgico do hospital, dos bisturis esterelizados, da suposta ‘limpeza’ do ambiente, do conhecimento do médico, que sabe o que é melhor para nós e nossos filhos.

Na sociedade da velocidade, não se  conta mais a gravidez em meses, mas em semanas; não se tem mais um mês provável para o parto, mas sim uma data; passou dela, é hora de internar, pois o bebê corre risco dentro desse corpo feminino, incapaz, defeituoso e perigoso. E aí entramos naquela loucura de “bebê preguiçoso”, que “passou da hora”, como se eles viessem com o prazo de validade estampado na testa quando nascem.

Na sociedade tecnológica, não se fazem mais apalpações na barriga da mãe para sentir a posição do bebê e a quantidade de líquido, se fazem ultrassonografias, com aparelhos manuseados por humanos e, por isso mesmo, bastante sujeitos a erros. E aí se cria na cabeça das mulheres o pesadelo do bebê gigante, que não vai passar, como se a natureza fosse cruel o suficiente para nos fazer gerar uma vida que não seremos capazes de dar à luz.

E, quando finalmente esse bebê nasce, seu instinto de sobrevivência é voraz, e não doce e sorridente como querem nos fazer crer as imagens das propagandas de fraldas e de shampoo infantil... Esse ser, tão pequeno, com a boca totalmente aberta, mãos cerradas, emitindo grunhidos que poderiam ser os de um filhote de hipopótamo, indo em busca do seio, de uma parte do nosso corpo tão cara e tão sensível, pode se tornar algo assustador se não estivermos preparadas para encarar o processo tal como ele é: fisiológico, natural, humano e animal ao mesmo tempo. Porque, afinal, como dizia a propaganda, ‘nós somos mamíferos’.

E a dor, que julgávamos ter desaparecido com o fim das contrações recomeça, e se nós travamos ao dar o peito, o leite some, empedra. E sempre tem alguém para apontar que nosso corpo é, mais uma vez, defeituoso, e o bebê não está ganhando peso. Ah, quanta ironia da natureza... nos faz gerar uma vida e não nos dá capacidade para mantê-la.

E assim, nós, que passamos tanto tempo exigindo ser tratadas em pé de igualdade com os homens e falando de gênero como algo socialmente construído, acabamos iguais num aspecto: incapazes de parir e de amamentar. Mas basta lembrarmos que diferente do gênero, o sexo, masculino ou feminino, é fisiologicamente constituído. Sim, temos diferenças centrais em relação aos homens. Do corpo deles não verte leite, do corpo deles não é possível sair um bebê. E não, não é possível que a natureza tenha mudado a ordem das coisas e entrado o século 21 nos pregando tantas peças...

Fico pensando em como é difícil processar tantas idéias num momento tão delicado quanto a gravidez e o puerpério e no quanto seria ingênuo acreditar que, sendo humana, vivendo na sociedade em que vivemos, seja possível seguir apenas os instintos para viver esse momento. Muito antes pelo contrário, o bom seria que soubéssemos todas usar uma espécie de “razão instintiva”, que nos permita aproveitar o máximo de conhecimentos da sociedade da informação para fazer nossas escolhas, respeitando, porém, a nossa fisiologia, e exigindo o controle absoluto sobre os processos que ocorrem em nosso próprio corpo, e o respeito ao tempo da gestação e do nascimento de cada um.

Bem, com certeza, esse tempo não coincide com feriados, festas e finais de semana dos médicos. Nem com o faturamento projetado para o próximo período dos hospitais mundo afora. Mas é preciso fazer uma escolha. E, com certeza, homens e mulheres das próximas gerações agradeceriam tamanha deferência com o tempo deles e delas... pois a vida, sim, começa no nascimento.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Uma rave sem aviso prévio


Se tem uma coisa que eu sempre gostei de fazer foi dormir bem. E bastante. Desde pequena, nunca fui de dormir tarde, e também nunca curti acordar cedo. Minha mãe, muito sábia, nunca me colocou pra acordar cedo pra ir pra escola, e eu só fui saber o que era isso quando cheguei no ensino médio. Depois, já mais velha, é claro que perdia noites de sono por uma boa balada, trocava o dia pela noite e, claro, pagava o preço disso. Até que fui percebendo que a qualidade do sono também estava diretamente ligada ao meu humor e à minha saúde... e passei a valorizar ainda mais as horas de sono bem dormidas. Tanto que, no mestrado, quando a maioria das pessoas varava noites para escrever suas dissertações, eu fiz questão de garantir os dias bem produtivos – para me encontrar com Morfeu todas as noites com a sensação de dever cumprido. E funcionou.

Como toda grávida que se preze, senti bastante sono no começo, que se estabilizou no meio do caminho, pra me fazer chegar no final aproveitando para descansar bastante, pois sabia que quando Luca nascesse, toda a rotina de sono conquistada ao longo de muitos anos estaria em xeque. E, claro, foi o que aconteceu. O sono dos bebês é imprevisível, e um dia ele pode dormir super bem, mas no outro pode resolver organizar uma rave na sua casa sem nenhum aviso prévio.

Bom, mas a verdade é que eu não tenho muito do que me queixar em relação ao sono de Luca. Desque ele nasceu, tem dormido super bem, especialmente à noite, quando embala de 6 a 8 horas seguidas, acordando uma vez pra mamar – duas, no máximo – e curtindo uma sonequinha durante o dia. O recorde dele dormindo foram 12 horas seguidas – e nesse dia, pasmem, eu acabei nem descansando direito, achando que ele podia acordar a qualquer momento...

Mas de vez em quando ele me prega umas peças e me quebra inteira. Porque eu to lá, seguindo o ritmo do sono dele durante o dia e à noite, procurando aproveitar o máximo desse tempo pra descansar, mas também pra deixar algumas outras coisas da vida minimamente organizadas. Não que eu seja muito exigente com a organização da casa – e nesse quesito Edu tem sido exemplar, ajudando na arrumação, na cozinha e nas compras – e nem que esteja escrevendo loucamente sobre a experiencia de ser mãe, mas eu preciso tomar banho, comer, e me conectar um pouco com o mundo também...

Eis que chega um belo dia, e ele resolve fazer a balada da madrugada e deixar todo mundo de plantão. O esforço pra conseguir interagir com ele quando isso acontece é sobrehumano, e nessas horas eu fico me perguntando se nasci mesmo pra isso... Ele tá lá, todo risonho, mamando, arrotando e descobrindo o mundo e eu to quase cochilando, tendo que tomar cuidado pra não derrubar ele do colo, de tão chapada... Mas ainda assim, é bacana ver que a falta de sono dele é porque são muitas informações pra processar, e às vezes não rola de dormir mesmo. Fico feliz porque percebo que é um sinal que ele está se desenvolvendo.

Essa semana, porém, eu me deparei com esse situação numa noite e, na noite seguinte, com uma outra não tão legal. Na primeira noite, pus ele pra dormir na hora normal, e ele me acorda depois de umas 3 horas dormindo... ligadaço. Não tinha incomodo, não tinha nem tanta fome assim. Ele queria brincar, olhar os pés que acabou de descobrir, o trenzinho na parede, queria ficar rindo de nada e de tudo ao mesmo tempo... vai saber o que se passa na cabeça de um bebê de dois meses. Resultado: eu e Edu tivemos que nos solidarizar a ele, e nos revezamos na hora de levantar pra (tentar) fazê-lo dormir.

No  dia seguinte, era dia de dar vacina. Eu até pensei em adiar, afinal ele não tinha descansado, nem eu, mas não dava, já estava passando do tempo e lá fomos nós... Eu não tenho essa de chorar junto com o bebê, sabe... eu até fico penalizada de vê-lo sofrer com a picadinha, mas meu senso prático fala muito alto nessa hora e eu sei que é para o bem dele. Sim, sou adepta convicta das vacinas, e confesso que até hoje não entendo direito os argumentos de quem não vacina seus pimpolhos...

Ele teve que tomar duas vacinas de gotinha e uma injeção. Foi choro atrás de choro e quando acabou, vesti a roupa dele, pus no sling e ele adormeceu... fomos pra casa torcendo para as reações serem as mínimas possíveis. Mas não aconteceu. Nas primeiras horas, a perna inchou, deu febre, e provalvemente dor no corpo todo, porque ele não conseguia dormir e chorava por nada e por tudo. Pra um bebê como Luca, que só chora de fome e reclama quando quer colo, isso já era totalmente fora do normal... O dia foi passando e tudo o que eu ouvia era um choro de dor, de lamento, pedindo colo, pedindo pra aquilo tudo passar logo... mas não passava. E era martirizante não poder fazer nada pra passar... e ainda por cima, querendo – muito – dormir...

Quando o dia caiu, ele estava no auge das reclamações. Nenhuma posição servia, ficar sem colo nem pensar, sugar o peito era uma dificuldade. Papai chegou, mais choro. Demos tilenol pra febre baixar, na esperança de agir também na dor. A temperatura normalizou ainda de noite, mas a dor... E tome leitinho e peitinho pra sugar e passar a dor, mas nada. Meus peitos estavam vazios, já que não tinha dormido e ele passou praticamente o dia pendurado.

Já era tarde quando finalmente parecia que ele ia dormir pra valer. Pus no berço e não se passaram 15 minutos pra ele acordar, com o berço provavelmente infestado de formigas que não o deixavam descansar... Edu se propôs a dormir com ele no colo no sofá da sala, pra que eu pudesse descansar e não prejudicar a produção de leite. Afinal, seria a segunda noite mal dormida, e o leite é produzido principalmente quando estamos relaxadas, de preferência dormindo...

Funcionou um pouco, mas ele logo acordou pedindo o peito. E dormiu rápido. Quando foi pro colo do pai de novo, já não era mais a mesma coisa... eu fui pra cama e Edu tentou nina-lo por um tempão, até que ele vomitou – provavelmente outra reação da vacina deve ter sido no estômago – e eu resolvi dar de mamar na cama, deitada, porque aí ele adormeceria no peito, mas já deitado... Edu se juntou a nós e assim amanhecemos o dia... Não preciso nem dizer o estado dos 3, né... sim, porque Luca também estava esgotado.

Minha vontade era ficar prostrada em casa, mas com um bebê no colo isso simplesmente não existe, então segui com a rotina. Foi a melhor coisa que fiz, porque isso o fez se sentir melhor e mais relaxado, conseguindo dormir. Ginástica logo cedo (não me perguntem como consegui energia pra fazer os exercícios... deve ser coisa que só quando a gente se torna mãe acontece mesmo...), muito colo, muito peito, muita brincadeira, mais algum incômodo na barriguinha no fim do dia, um cocozão pra terminar e... o monstro da vacina foi embora. Luca deixou Morfeu voltar pra casa, mandou as formigas para a toca delas... e papai e mamãe pra cama deles, que ninguém é de ferro. E a paz voltou a reinar no segundo andar. Até a próxima festa começar...

domingo, 3 de julho de 2011

Quem não chora não mama?

Até que Luca viesse ao mundo, eu nunca entendi essa história dos tipos de choro do bebê. Confesso que tinha dificuldade em concordar que, sendo essa a única forma de comunicação deles, desenvolviam uma entonação para cada queixa ou demanda que apresentassem... Mas sempre pensei também, por outro lado, que minha ignorância se devia ao fato de ainda não ter vivido essa experiência concreta. Que quando chegasse a minha hora, eu saberia.

Bem, minha hora chegou e eu continuei sem entender direito essa história dos tipos de choro. Li algumas coisas a respeito, que inclusive detalhavam algumas diferenças e fiquei observando Luca para ver se identificava alguma delas... não, nada. Talvez porque ele seja um neném muito tranquilo e chore muito pouco eu tenha tido – e ainda tenho – dificuldade de diferenciar as coisas.

Assim, vira e mexe eu levanto no meio da noite, achando que ele está acordado, querendo mamar, quando ele só está gemendo, provavelmente tendo algum sonho que nunca se lembrará... Mesmo se me guio pelo relógio, pois já dá pra saber mais ou menos os intervalos de sono e fome dele, ainda ficamos, eu e Edu, sujeitos a erros...

Bem, isso acontece também porque eu adotei como princípio não esperar meu filho se esvair em lágrimas para ir atendê-lo. Se tem uma coisa que nunca fez sentido pra mim é deixar um bebê chorando para não ‘mimá-lo’, não deixá-lo ‘manhoso’.

Depois que engravidei, e que passei a pesquisar diversas coisas relativas ao choro e à famosa manha, é que me convenci que deixar um bebê chorar loucamente só faz com que ele... chore ainda mais. Sim, pois, em primeiro lugar, nascemos com um sistema nervoso muito imaturo e, até os 3 meses, somos incapazes de manipular quem quer que seja. Não há consciencia desenvolvida o suficiente para tal. Depois disso, logo ele perceberá que quanto mais alto chorar, mais cedo ganha o que quer. E aí vira um cavalo de batalha entre pais e filhos que, sinceramente, não vejo quem possa sair beneficiado...

Assim, tenho me dedicado a perceber seus sinais antes que o choro venha. E vamos combinar que um bebê não tem desejos muito elaborados ou extravagantes: ele gosta de mamar, ficar sequinho e dormir. E não é dificil identificar nenhuma dessas coisas quando elas chegam. Por isso que quem já conheceu Luca, o acha um bebê mais que tranquilo.

É claro que tem dias que a gente acaba chegando meio tarde e aí o berreiro se forma... Mas dura pouco, felizmente. Agora, já passei alguns sufocos com ele nesse comecinho da nossa relação, em que não conseguia entender os seus desejos. E isso se refletiu na dificuldade de dormir, choro fácil e constante, necessidade de sucção incontrolável... Nada que se assemelhasse aos relatos que ouço das famosas cólicas (embora eu tenha lido coisas muito diferentes entre si a respeito delas, desde culturas que não conhecem o significado dessa palavra, até a medicina ocidental, que diverge nas causas e sintomas desse choro prolongado e inconsolável...), mas que foram suficientes para, junto com a avalanche de hormônios do puerpério, me deixar bem desestabilizada.

E aí, quando o instinto me deixou na mão, recorri ao intelecto e fui pesquisar. Uma das descobertas, ainda nos primeiros dias após o parto, foi a tal teoria da ‘exterogestação’, segundo a qual o bebê, depois que nasce, não assimila imediatamente que está fora da barriga da mãe. Então, além de achar que ele e ela ainda são uma coisa só, o bebê busca também as mesmas condições que tinha dentro do útero: um lugar quentinho, apertado e escurinho.

Laura Gutman, terapeuta argentina especializada em tratar mães de recem nascidos, afirma que um bebê precisa de apenas 3 coisas. Alimento é a primeira delas. A segunda, comunicação; sim, é preciso conversar com seu filho, explicar a ele o que está  fazendo com ele, o que acontece no entorno, quem são as visitas que chegam, onde vão passear... ele não processa nada disso em forma de linguagem, mas das sensações passadas pela mãe e pelo pai, e isso o tranquiliza, pois ele já ouvia essas vozes quando estava no útero. E, a última, contato físico... o famoso colo, que tem caído tanto em desuso ultimamente, diante das sentenças dos ‘especialistas’ e a ânsia dos pais para que os bebês não se tornem crianças manhosas... o que às vezes me cheira puro comodismo, para que possam liberar as mãos para fazer outras coisas.

E aí, o que eu acho é o seguinte: se fosse o colo o problema, seria fácil de resolver. Como diz um amigo, a coisa complica quando eles aprendem os verbos comprar e querer, e os pais não sabem dar medida disso. Aí sim, veremos o que é manha... Mas isso fica pra outro capítulo, afinal, eu ainda sou mãe de um bebezinho de um mês e não me deparei com essas questões...

Outro achado foi um pediatra inglês, salvo engano, chamado Harvey Karp, que desenvolveu algumas técnicas para criar condições semelhantes à vida no útero e acalmar bebês desconsolados. Ele publicou inclusive um livro, com DVD, chamado “The Happiest Baby on the Block”. O livro eu recebi um trecho de uma amiga mamãe e o DVD recentemente eu consegui uma cópia, que ainda não assisti.

Entre outras coisas, ele recomenda enrolar o bebê apertadinho num cueiro e fazer um som parecido com ‘shhh, shhhh’, que também pode ser substituído por uma torneira aberta, que relembra os ruídos de dentro da barriga da mãe. Essas duas dicas, somadas a um estratégico banho bem quentinho no fim da tarde, foram essenciais quando Luca passou uns dias muito agitadinho, e fez com que ele voltasse a dormir melhor – e me deixasse dormir também. Sim, porque pior que ver seu filho incomodado, é ter que lidar com isso num estado lamentável de cansaço... haja paciência e perseverança para não jogar a tolha...

(...)

Claro, como se isso fosse possível...

(...)

Não é, nem eu quero. Quero mais é aprender o que meu filho precisa e fazer o possível para atendê-lo. Hoje, ele é totalmente indefeso e precisa do mínimo. Sei que em breve  as necessidades mudarão, e as exigencias também, vindo junto um temperamento que ainda irá se formar. Tenho crença absoluta de  que tudo o que estou fazendo com ele hoje, irá se refletir nele e em nossa relação daqui a alguns anos, quiçá meses. Não quero que ele pense que precisa  se defender de mim, chorando. Quero que ele aprenda que não é preciso chorar para conseguir o que ele quer, que é possível estabelecermos uma relação em que ele utilize, hoje, suas lindas caras e bocas e, mais adiante, seus argumentos. E, se ele puxar à mãe, não faltarão argumentos para  conseguir o que deseja... 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma feliz parceria

Quem imagina que, na maternidade, a dor termina com o parto, engana-se redondamente. Sim, a amamentação é um exercício de perserverança, determinação e paciência. E, sobretudo, de resistência à dor. Logo após o nascimento, tudo o que eu mais queria era alimentar meu filho, tê-lo em meus braços e permitir, com o alimento produzido dentro do meu próprio corpo, que ele possa crescer e se desenvolver. Mas, na primeira pegada, senti que as coisas não seriam tão fáceis assim. Dizem que meninos sugam com mais força que as meninas, mas acho que num primeiro momento não há mulher que não sinta o choque do ‘apertão’ numa área tão sensível do corpo. Ali, começamos a ser testadas nesses quesitos que citei no começo do parágrafo.

No meu caso, eu tinha 50%  das coisas resolvidas: um dos meus peitos tinha o bico totalmente formado, enquanto o outro teria que ser formado por ele, ao longo das primeiras mamadas. Esse processo foi bem difícil: nos primeiros dias houve um certo sangramento, e o processo de cicatrização demorou pelo menos uma semana. A dor é inimaginável. É totalmente diferente do parto, e incomparável, pois no caso da amamentação, você sabe que ficará nessa por pelo menos seis meses... e eu só ficava imaginando em que momento a dor iria passar...

Confesso que, diante desse cenário, meu instinto materno não veio junto com Luca; ele foi se constituindo aos poucos, pois, no começo, cada vez que ele ele pedia o peito, eu ficava bem angustiada com a idéia de sentir dor mais uma vez. Desejava que ele se saciasse logo e dormisse – sim, o peito é um poderoso sonífero, e nesse primeiro mês, conto nos dedos as vezes que foi Edu quem conseguiu fazê-lo dormir...

Evidente que a questão do instinto materno não tinha a ver apenas com a amamentação; o turbilhão de emoções pelo qual passamos após dar à luz, juntamente com as demandas contínuas de nosso bebê, nos põe à prova a todo instante. Não é simples se deparar com uma vida totalmente dependente da sua, que sente o que você sente, que capta suas emoções e sua energia, agindo de acordo com elas. E não é simples perceber que fazemos a mesma coisa. A ligação é, de fato, muito intensa, e a amamentação, além de servir à nutrição e ao desenvolvimento dessa nova vida, é um símbolo da força dessa conexão.

Nos dias em que ele tomou as primeiras vacinas e fez o teste do pezinho, ainda na primeira semana, minha perseverança continuou sendo posta à prova: as reações causadas por essas intervenções fizeram com que Luca ficasse muito incomodado e, como reação, solicitasse muito mais o peito. Ainda com feridas nos mamilos, achei que não fosse aguentar o tranco muito mais tempo. Além disso, não é muito animador ter que encarar outras restrições, como evitar alimentos com cafeína e bebidas alcóolicas e caprichar nos nutrientes, retardando a volta ao peso original; as roupas que fatalmente se sujam de leite gorfado assim que v. sai do banho e a necessidade de ter peças adequadas para amamentar, me impedindo de ter logo meu guarda roupa pré-gravidez de volta...

Mas tudo isso acaba sendo um mero detalhe, pois os dias passam tão rápido, as feridas cicatrizam e o ato de amamentar meu filho, acalentá-lo e fazê-lo dormir tem se tornado mais e mais prazeiroso, a ponto de me pegar desejando que ele acorde logo para vir para os meus braços. Ainda sinto alguma dor, que estou investigando a causa, sendo uma das hipóteses a pega inadequada (ainda que eficaz) ou fungo (coisa muito comum no pós-parto)... Mas, ao ver que ele engordou mais de 1 kg em apenas um mês, só posso ficar feliz porque meu leite estar sendo tão bom pra ele. E não questiono, de forma alguma, a decisão de amamentá-lo exclusivamente nos próximos 5 meses e estender isso por, pelo menos, até ele completar 1 ano – se assim ele quiser.

Sim, é cansativo levantar de madrugada para alimentá-lo – rotina que inclui também uma troca de fraldas – e esperá-lo adormecer de novo. E, nesse começo, sequer faço esforço para criar uma rotina para ele. Ele é quem me diz a rotina que eu devo seguir. Resultado é um cansaço extremo, que nem sempre consigo amenizar dormindo nas horas que ele dorme. Seja porque tenho que resolver outras coisas, seja porque o sono não vem. Tenho me esforçado; permaneço na cama mesmo sem dormir, só relaxando o corpo, esticando as pernas, a coluna, para poder aguentar a madrugada que me espera.

Eu, que sempre gostei de um lugar confortável para dormir, hoje me pego cochilando na poltrona que fica no quarto dele durante essas mamadas. Porém sei que o meu relaxamento, a ponto de adormecer, passa para ele não  como indiferença, mas como entrega total a um processo que é conjunto. Uma parceria feliz que estou desenvolvendo com meu filho e que, espero, seja a primeira de muitas. E é muito gratificante olhar para ele e, a cada instante, descobrir que algo nele está mudando; seja porque está crescendo, porque está mais alerta, porque suas mãozinhas já fazem movimentos mais conscientes junto ao meu corpo. E, apesar de saber que ele ainda é muito pequeno para dar sorrisos conscientes, gosto de pensar que a risadinha que ele abre após largar o peito é um reflexo das sensações de satisfação dele, ao se sentir amado e bem nutrido...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Há dores que vêm para o bem

Escrever sobre uma experiência tão marcante e importante quanto o parto, o primeiro parto, não é algo que dá pra ser feito da noite pro dia, muito menos com pressa. As tarefas imediatas implicadas no nascimento de um filho e o conseqüente esgotamento físico e mental pelo qual passamos após o parto exigem um tempo para que possamos nos recuperar e maturar esse processo, que mexe com emoções profundas... Desenvolvi a teoria de que o ideal seria que eles, após nascerem, dormissem uns três dias seguidos, sem precisar nem se alimentar, para que pudéssemos descansar e começar a jornada da maternidade com mais pique.

As emoções que vivenciamos durante o parto, pelo menos pra mim, não estavam na superfície imediatamente. Elas foram se apoderando de mim nos dias que se seguiram, com uma conseqüente descarga hormonal que me deixou muito, mas muito sensível. E, nesse ponto, o apoio, emocional e logístico (sim, porque as tarefas de casa continuam) do meu companheiro foi fundamental, pois assim eu pude viver o pós-parto com a mesma intensidade que o parto em si.

Então, as lembranças foram vindo aos poucos, até que eu conseguisse efetivamente me sentir disposta a pegar o computador e começar a escrever sobre elas. Ademais, a maternidade é uma vivência tão passional, que fica difícil encarar tantos sentimentos sabendo que a qualquer momento seu bebezinho pode acordar esfomeado e v. ter que interromper tudo o que está fazendo para atendê-lo.

Feito o preâmbulo, quero contextualizar um pouco como chegamos até aqui: eu e Eduardo, recém casados, nos vimos às voltas com a chegada de um bebê em agosto de 2010. Fazia pouquíssimo tempo que estávamos morando sob o mesmo teto e a notícia, apesar de já fazer parte de nossos planos e nossas conversas, nos pegou um pouco de surpresa. A alegria foi imediata, mas a adaptação foi um processo. Desde o começo eu tinha certeza que o queria perto de mim no momento do nascimento, me apoiando e participando ativamente do processo.

A preparação para o parto

Desde o começo eu tinha certeza que queria um parto natural. A idéia de sentir dor, apesar de me assustar um pouco, não me dava mais medo do que perder o controle dos movimentos no momento de trazer meu filho ao mundo. Por isso, não cogitei, ao longo da gravidez, a idéia de uma anestesia. Muito menos de precisar de uma cirurgia. Outras questões, como episiotomia, indução, hormônio intravenoso etc., fui assimilando aos poucos, ao tempo que ia fazendo escolhas e compartilhando-as com meu parceiro.

Edu sempre esteve totalmente envolvido na gravidez, interessado em saber o que estava acontecendo com meu corpo, com o bebê que crescia aqui dentro. Quando conversamos sobre que  tipo de parto teríamos, ele logo topou a idéia de acompanhar e participar de todo o processo, mas não curtiu a idéia de um parto domiciliar. O argumento dele era a preocupação de o bebê ou eu precisarmos de alguma assistência de urgência após o parto e não haver tempo hábil para uma transferência. Preocupação justa, admito.

Ao irmos atrás de um obstetra para nos acompanhar no pré-natal, tudo o que eu queria, era um que não forçasse a barra para uma cesárea com 39 semanas por um motivo qualquer – tem aos montes por aí – e respeitasse o plano de parto que ainda estávamos por escrever. E isso eu encontrei, felizmente.

Construímos uma relação bacana com nossa obstetra que, além de muito tranqüila em relação ao parto natural, à gravidez com mais de 40 semanas, demonstrou também ser muito respeitosa dos desejos da mulher desde a primeira consulta. Assim, quando lá pelas 24 semanas apresentamos um plano de parto a ela, não foi difícil que ela concordasse com tudo que queríamos para o momento. O problema mesmo seria o protocolo do hospital que elegêssemos para Luca nascer, e o setor de pediatria...

Visitamos duas maternidades, pesquisamos, ouvimos relatos, nada animador. Pediatras são bem duros nos procedimentos que adotam com recém nascidos, tratados como um saco de batatas. Sinceramente, isso sempre foi o que mais me preocupou. Sabia que teríamos algum controle sobre intervenções em mim, mas nele... enfim, continuamos em frente, cientes de que seria necessária muita determinação e firmeza para garantir que nosso pequeno fosse bem tratado quando nascesse.

As semanas foram passando e, numa dessas voltas que o mundo dá, quando conversávamos sobre o hospital para o qual iríamos na hora do parto, pesando prós e contras de cada um dos que tinham nossa preferência, eis que o assunto do parto em casa volta à tona e eu nunca me esqueço nosso diálogo, comigo dizendo que essa sempre foi uma opção pra mim e Edu me perguntando se ainda tinha como viabilizar isso. Significou muito pra mim essa atitude dele. Revelou que tínhamos construído um caminho e acumulado conhecimento suficiente para ele, enfim, se sentir mais seguro com essa opção, valorizando menos o que podia dar errado e mais os benefícios de ter nosso bebê dentro de casa...

Bem, mas nesse momento eu já contava com mais de 8 meses de gravidez e, para fazer a coisa acontecer, era preciso agir rápido. Disparei alguns emails para parteiras que tinha indicação aqui em Brasília e uma delas acenou positivamente com a possibilidade de acompanhar nosso finzinho de gravidez. Paloma é uma figura de semblante tranqüilo, mas de firmeza suficiente nos seus protocolos, nos deixando seguros de que não arriscaria um fio de cabelo meu ou de Luca caso tivesse que optar por uma transferência. E com ela seguimos até o dia 31 de maio, dia de Luca chegar ao mundo.

Entrando na partolândia... mas devagar quase parando

Antes do dia D chegar, porém, eu estava passando por altos e baixos emocionais que, por mais que me dissessem ser parte do processo, não estavam sendo legais de atravessar, não. A famosa “data provável do parto”, aquela que quando vai se aproximando a maioria dos médicos já deixa uma cesárea agendada, já tinha se aproximado e depois passado, e nada de contrações fortes e ritmadas, como requer um bom trabalho de parto. Só umas dorzinhas esparsas, leves, e que cessavam na hora que eu ia dormir... a parteira estava tranqüila, a médica, também, Eduardo mais ainda, só eu, que deveria ser a mais calma de todos, que não estava.

Nesse processo, pensei de tudo: que não era capaz de entrar em trabalho de parto, que algo ruim poderia acontecer com Luca se passasse de 40 semanas e termos que tirá-lo na faca, que meu sonho de tê-lo em casa viraria um pesadelo hospitalar, entre outros sentimentos os mais negativos possíveis. Aos poucos, fui domando um a um esses medos e procurando acreditar que sim, eu era capaz de trazer meu filho ao mundo, e que estava tudo bem com ele, não havia com o que se preocupar. Fui efetivamente mergulhando no universo da partolândia, e me preparando para me despedir da gravidez e da barriga. Eduardo me dizia que se tudo tinha dado certo até agora, não seria nos finalmentes que daria errado. Procurei me apegar a esse idéia e me conectar mais comigo e com meu filhote, ainda dentro da barriga, numa tentativa de me preparar melhor para o que viria... e relaxar... sobretudo, relaxar.

Oscilei bastante nesse meio tempo, é verdade. Tinha momentos que acreditava que tudo que estava acontecendo (as contrações fracas e sem ritmo, a fragilidade emocional, os pensamentos negativos...) eram sinais de um trabalho de parto na iminência de começar, e outros momentos que beirava o desespero de tanto chorar...

Na segunda feira, véspera do nascimento de Luca, disse pra Edu que achava que esse negócio de contrações fortes e ritmadas não ia acontecer comigo. Nesse dia, procurei descansar mais e trabalhar menos (sim, eu entrei em licença maternidade apenas no dia do nascimento de Luca, seguindo no mesmo ritmo até os últimos momentos. Era a minha receita de sanidade.). Passei o dia imersa em leituras, fui na sessão de acupuntura, onde passei um tempo maior que de costume, tentando me conectar comigo mesmo e com meu filho. De noite, fomos caminhar, eu e Edu, perto de casa, seguindo a rotina de exercícios adotada ao longo da gravidez.

No caminho, comecei a sentir movimentos diferentes, que pareciam ter algum ritmo, embora pouca intensidade. Paloma tinha me orientado a prestar mais atenção na intensidade que nos intervalos, pois isso balizaria a existência de trabalho de parto ou não... Procurei abstrair, apenas deixando as dores virem e irem quando quisessem. Voltamos pra casa, e elas continuaram por mais algumas horas. Eu já tinha sentido isso antes, e tinha cessado ao ir dormir, por isso não fiquei contando nem duração, nem intervalos, para não me frustrar caso não fosse nada.

Chegou, chegou, chegou... afinal que o dia dele chegou...

Quando bateu o sono, fui dormir. Mas quando acordei, mais de 4h da manhã, sem sentir nada, mergulhei novamente numa crise de choro. Eduardo acordou, procurou me consolar e me acalmar, mas eu estava inconsolável. Desabafei, falei pra ele de todos os meus medos e da única coisa que me acalmaria naquele instante: contrações, que começassem e não mais parassem. E de forma mágica, foi exatamente o que aconteceu. Eu não podia acreditar que, às 5h da manhã do dia 31 de maio, tudo estava começando...

Lá pelas 7h, decidimos começar a contar as contrações. As dores, ainda suportáveis, que estavam vindo mais ou menos de 10 em 10 minutos, passaram a ser de 3 em 3 minutos. Depois de uma hora nessa toada, ligamos para Paloma que nos perguntou se a presença dela já era necessária, e achamos que ainda não. Queríamos levantar, tomar banho, café, enfim, seguir com a vida.

Fomos até a padaria, andando, sentindo as contrações chegarem e irem embora, uma a uma. Aproveitamos para tirar as últimas fotos da barriga, que logo mais seria apenas uma boa lembrança. Perto da hora do almoço as dores apertaram e eu pedi a ele para ligar para a parteira vir. Sabia que demoraria um tempinho até ela chegar, e queria que ela estivesse aqui antes que a coisa ficasse insuportável. Na verdade, na verdade, eu não tinha idéia do que ainda estava por vir naquele dia...

Além da parteira, tínhamos uma fisioterapeuta, Patrícia, que também é prima do Edu, me acompanhando desde o começo da gravidez, com qual fiz aulas de hidroginástica e exercícios de fortalecimento da região pélvica, valiosos para garantir a integridade do meu períneo ao final do parto. Ela logo foi chamada também e acho que era hora de almoço quando as duas chegaram. Edu começou a viabilizar uma refeição para todos nós e eu me lembro de conseguir comer um prato não muito cheio, entre uma contração e outra. Foi minha última refeição grávida. Depois disso, só me lembro das pessoas me pedindo pra eu me alimentar, e de ter ficado muito fraca no final, me arrependendo de ter comido tão pouco...

No começo da tarde foi feito um primeiro exame de toque, em que eu estava com 4 cm de dilatação e o colo todo apagado. Luca estava a toda aqui dentro, com os batimentos cardíacos em cerca de 150 bpm, e assim ficou durante todo o trabalho de parto. Inclusive no final, quando eu já estava pedindo arrego, ele estava numa boa.

É difícil narrar o parto, porque, na verdade, se trata de viver uma contração atrás da outra. Literalmente como se diz, são ondas, que vêm e vão. Procurei relaxar o máximo que pude, brincar e interagir enquanto foi possível. Quando eu sentia a dor apertar, corria pra debaixo do chuveiro e lá ficava relaxando por um tempo, proporcional à intensidade do que eu estava sentindo. Num ambiente tranqüilo e acolhedor, e com muita massagem e apoio, foi possível levar a dor com alguma serenidade.

Em algum momento, porém, comecei a ficar sem posição. Pensava em deitar, mas era só inclinar o corpo que minhas costas gritavam, me dizendo que aquela posição era última que eu deveria adotar. Não me espanta que a experiência do parto normal hospitalar seja tão traumática para mulheres que passam por ela. É terrível sentir contrações deitada numa cama, por mais confortável que ela seja (e tem cama mais confortável que a nossa mesma?). O movimento é essencial para atravessar aquelas ondas todas, se repetindo sem você ver o final. Por isso se diz tanto que perdemos a noção do tempo... parece que existem apenas... contrações...

O paradoxo da dor

Umas das melhores definições que recebi sobre a dor do parto é a sensação de estarem rasgando suas costas. E a melhor que encontrei foi a sensação das minhas pernas querendo se separar do meu corpo... e essas duas sensações juntas crescem com o passar do tempo, como cresce.

Quando já não agüentava mais as posições de sempre, Paloma sugeriu que eu me apoiasse na bola, em cima da cama. Minhas pernas tremiam, eu me sentia bem fraca, mas resolvi tentar. E, nesse momento, me entreguei completamente. Eu saí de mim mesma e meu corpo, junto com Luca, se apossou de tudo que eu estava sentindo. Cada contração era um urro, um grito com a boca bem aberta, de muito fôlego, que eu não sabia dizer de onde estava vindo. Mas era uma forma de exorcizar o medo e chamar meu filho ao mundo, abrindo passagem para ele. Assim, percebi que estava entrando na última fase daquele processo, a mais difícil, mas a derradeira, e caí num choro intenso, porém de alívio.

Existia uma leve vontade de fazer força, mas resolvi não forçar. Resolvi deixar meu corpo me mostrar a hora de realmente fazer força. Fiquei nessa posição, recebendo massagem na lombar e nos ombros, por não sei quanto tempo, até que minhas pernas não agüentaram mais. Enquanto isso, Eduardo só me olhava, sorria pra mim, numa calma que eu não conseguia entender... Mas que me deixava feliz por ser assim.

Pedi para ir pro chuveiro, mas não durei nada lá, a dor já tinha me deixado desnorteada. Nessa hora achei que nunca mais ia parar de sentir dor, e que ia enlouquecer. A parteira me sugeriu sentar no vaso, disse que isso ajudaria um pouco a dilatação e eu poderia descansar. Me enrolei numa toalha, depois num casaco – já era noite e tinha esfriado – e lá fiquei.

Depois disso, Paloma me pediu para ir para a famosa banqueta de parto e eu, que achei que daria à luz numa dessa, não gostei da experiência, pois ela era muito baixa para mim, e eu ficava extremamente desconfortável. Mas ela insistiu e eu entendi que estava fazendo isso como forma de adiantar o trabalho de parto. Eu já estava com dilatação total, mas a bolsa continuava intacta. Não acreditei quando ela me disse, mas aí entendi que era por isso que as coisas estavam realmente mais lentas. O problema é que a dor era muita e estava realmente me incomodando.

Nessa hora, me lembro de pensar no hospital, de pensar numa anestesia. Justo isso, que desde o começo eu dizia não querer de jeito nenhum. Mas a dor nos tira um pouco da consciência e do rumo. É torturante, literalmente, por mais que saibamos que ela tem uma função. Só queremos que ela acabe.

A essa altura, ela me disse para começar a fazer força e não gritar mais. E, de repente, me senti recebendo uma descarga de adrenalina (segundo ela) que fez meu corpo começar a tremer por inteiro, de uma forma incontrolável. Eu já tinha saído de mim, mas naquele momento eu percebi que tinha perdido o controle. Eu só sabia o que fazer quando a contração chegava, pois percebia, a partir da orientação da parteira, cada canto da musculatura pélvica que tinha que movimentar.

E aí se sucedeu uma coisa muito louca: se antes eu queria que a dor parasse, aqui eu passei a desejar que as contrações viessem, logo, para que eu pudesse me movimentar e deixar meu filho nascer. Insuportável era esperar entre uma e outra, porque eu não conseguia raciocinar, porque meu corpo tremia, porque a minha sensação era que o tempo tinha parado. Contrações significavam movimento. E movimento, ali, naquela hora, significava vida chegando ao mundo.

Tentamos mais uma posição, deitada, numa tentativa de acelerar aquele expulsivo, mas não funcionou muito. Aliás, foi horrível, e a única coisa que eu me lembro foi ela me dizendo que eu era única pessoa que poderia fazer força e trazer meu filho ao mundo. Que nem tempo de ir pro hospital, fazer cesárea, dava mais.

Voltei pra banqueta e ela sugeriu romper a bolsa, pois isso, apesar de aumentar a dor, aceleraria o processo. Eu me sentia um farrapo humano: sem roupa, suada, chorando e louca para ter meu bebê nos braços. Claro que topei na hora, ainda que achasse que seria muito mágico trazer Luca ao mundo “embrulhado”. Todo o romantismo já tinha ido pro espaço. Só Eduardo, que continuava olhando pra mim e sorrindo, numa calma inacreditável... Bem, tenho certeza que sem ele não teria conseguido atravessar tudo isso. Foi uma experiência intensa também do ponto de vista da nossa relação, que acho que só serviu para fortalecê-la ainda mais.

Eu continuava fazendo força, Luca continuava com a corda toda aqui dentro, mas nada de sair. A parteira já tinha sugerido uma posição, no colo do Edu, que eu tinha certeza que não ia dar conta, tamanha minha dor; mas, como último recurso, concordei em tentar. E talvez devesse ter tentado antes, porque tanto a posição física, quanto a proximidade com o corpo dele, me fizeram relaxar como até então não tinha conseguido. Minhas pernas ficaram bem abertas, sem que eu tivesse que fazer força para isso, e meu corpo ficou totalmente apoiado nele, permitindo que apenas a minha pelve trabalhasse. E minha mente e meu coração puderam descansar, pois eu sabia que estava exatamente onde devia estar: dando à luz o meu filho, nos braços do meu companheiro que, de certa forma, também estava em franco processo de partejamento, de uma forma que ele mesmo talvez nunca tenha imaginado viver.

E aí se deu o clímax: num puxão, senti a cabeça dele. Outra contração, e aquela ardência conhecida como “círculo de fogo”, após o qual não há mais dor, apenas a prazerosa sensação de que uma nova vida está chegando ao mundo. A primeira separação de corpos de mãe e filho (sim, pois estou descobrindo que vamos vivendo muitas outras à medida que os dias passam...). Chegara o momento de nos conhecermos, de nos darmos boas vindas à nova vida que começará, para um e para outro. Luca saiu definitivamente e eu me lembro de dizer a Edu algo do tipo ‘nosso bebezinho nasceu!’. Nós dois ríamos muito, nos abraçamos, nos beijamos e, a partir daí eu só sabia rir, tomada de uma vontade imensa de tê-lo nos meus braços. Eu estava de costas para a parteira, e demorei alguns instantes para me virar. Isso porque Luca nasceu chorando bastante, mesmo preso ao cordão, e só de ouvir o chorinho dele, eu já sabia que estava tudo bem.

Juntos, enfim...

Na sequencia, mudamos de posição, para que eu pudesse pegá-lo no colo. Edu mais uma vez me aparou, e eu sentei na bendita banqueta de parto. Não conseguia dar-lhe o peito, porque o cordão umbilical era muito curto, mas ele estava ali, nos meus braços, e gritava, forte, como quem diz ‘mamãe, cheguei, cheguei’. Ele chegou gritando, expelindo mecônio, fazendo a maior bagunça na casa. Chegou para movimentar minha vida de uma forma que nada poderia chegar perto... Mais alguns instantes, hora de cortar o cordão. Papai convocado, morrendo de medo de machucar o bichinho.

Cordão cortado, hora de sair a placenta. Tudo o que eu queria era que ela saísse rápido. Queria deitar na cama, e pegar Luca no colo, olhar pra ele com calma. Meu desejo foi atendido... e que placenta gigante (que agora aguarda em nosso freezer virar adubo para alguma árvore , já que é considerada lixo hospitalar e não pode ser jogada em qualquer canto...).

Deitei na cama, sangrando muito ainda, e com a sensação de estar rasgada ao meio. Era o medo do que tinha acontecido com o períneo. O corpo todo tremendo, adrenalina lá em cima, mas dessa vez de alegria, porque tudo tinha dado certo. Tive que esperar mais um pouco até ser efetivamente examinada e, para minha alegria, nenhuma laceração que merecesse sutura. Nada de episiotomia, nada de pontos; apenas a natureza agindo, como tinha sido até ali.

O que se seguiu foram algumas horas para examinar Luca, pesá-lo e medi-lo. Com 3,550 kg e 52 cm, e uma cabeça com 36 cm de diâmetro (a média gira em torno de 33, 34 cm, pra dar uma idéia do que eu quero passar com essa informação...), ele foi para seu primeiro banho, no balde. De fralda e roupa nova, direto para seu bercinho, tirar um descanso merecido depois das corajosas 18 horas de trabalho de parto junto com mamãe e papai... Foi o tempo de arrumar nossa cama, receber algumas orientações sobre os cuidados pós-parto e com o bebê, e lá veio ele passar sua primeira noite no mundo entre mim e Eduardo, me inundando de uma alegria que eu nunca imaginei que pudesse sentir... Não preciso nem dizer que não preguei o olho, observando cada respiro dele (um pouco preocupada, é verdade, pois ele havia engolido um pouco de líquido, com mecônio, na hora do nascimento... mas expeliu tudo no dia seguinte, mostrando que não veio ao mundo para brincar), cada detalhe... Eu tinha, enfim, dado à luz um bebezinho muito lindo, e não via a hora da nossa história  começar...

Hoje, 22 dias depois dessa jornada ter se iniciado, posso dizer que o trabalho é muito, é cansativo e às vezes beira o desespero. Acordar de madrugada para dar de mamar, com os mamilos rachados, em carne viva, não é experiência nada romântica, como se pode imaginar. Mas os dias passam, as dores  também, e o que vai ficando cada vez mais presente é o vínculo entre mãe e filho, indescritível e inimaginável até que seja experimentado, suficiente para me fazer acordar todos os dias amando-o um pouco mais, e sentindo que o amor dele por mim também vai crescendo na mesma proporção...

PS 1. Muitas pessoas me parabenizaram pela coragem de um parto em casa, sem anestesia. Quero dizer que julgo mais corajosas as mulheres que optam ativamente pela cesárea, pois não deve ser nada fácil enfrentar um pós-operatório E cuidar de um recém nascido com uma cicatriz na barriga. Eu apenas deixei a natureza agir e optei por sentir dor uma única vez, ao invés de estendê-la semanas a fio.

PS 2. Parto em casa é algo muito incomum nos dias de hoje, é fato. Entende-se a gravidez quase como uma enfermidade, apesar do ditado, que deve ser cuidada por especialistas (como quase tudo na sociedade industrial). Mas nos reserva boas surpresas, como uma vizinha que bateu à porta no dia seguinte, nos dando parabéns pela chegada de Luca e dizendo que ficou ouvindo meus gritos do seu apartamento, na maior torcida para que tudo acabasse bem. Me senti quase como protagonizando o último capítulo da novela, emocionada com a sensibilidade dela.